sexta-feira, 6 de maio de 2011

Reflexões em torno do Sagrado Feminino - 5

Onde surgiu em nós nobres atitudes, esmerados costumes, raízes religiosas e as primeiras preces? Certamente, em nossa mãe. Junto com Deus, a mãe moldou em nós a essência do sagrado. Deus nos deu alma, a mãe nos deu hábitos humanos onde a alma se manifesta. A alma tem a substância divina, o corpo tem a substância materna. A mãe é a expressão mais visível do sagrado feminino. O próprio Deus moldou para si a Mãe da Encarnação.

A palavra mãe vem do sânscrito, base de todas as línguas, em sânscrito mãe é matri. Desta raiz vieram mater, mother, mutter, madre, mamã, mamá, mère, mati, mainha, mãezinha e tantos modos de dizer a nossa sempre lembrada genitora. A palavra soa como a prática de beber na fonte do leite materno, lábios dançando e sugando a primitiva sobrevivência; amar é mamar. Nascemos da carne e sangue da mãe, e ela foi a nossa primeira aproximação da intimidade divina. O sagrado se fez mais perto de nós através de sua constante presença. Se para muitos Deus é impessoal, para quem cultua a força maternal ela é a visibilidade do Absoluto. Sua presença efetiva e afetiva, as palavras simples, o encorajamento, a inspiração, o toque das mãos, a bendição, o porto seguro, a tranqüilidade, o incansável cuidado, nos permitem a travessia da existência. No sânscrito matri quer dizer medir e avaliar. A medida de mãe é um amor que não se mede e é o nosso parâmetro de valores, o modelo referencial do que entendemos de humano. Seu jeito é pleno de naturais atributos divinos e nos dá o padrão no qual tivemos o nosso aprendizado de amor desprendido, persistente, incansável, paciente, compreensivo terno e materno.

Nações espirituais, culturalmente fortes, criaram para ela uma data, um dia de domingo, festivo e carinhoso, o Dia das Mães. Uma data sagrada. Claro que o mundo mercantilizado e consumista ajeitou o modo de comercializar a ocasião, comprar e vender. Mãe merece todos os nossos presentes, cartões, mensagens, família se reunindo, e um filho ou filha ligando lá de longe; porém, o mais importante é não esquecer o berço onde aprendemos as nossas primeiras lições do Sagrado Feminino. Há algo de espiritual nesta data, algo mágico e místico, atraente e benevolente , emoção e gratidão, uma saudade imensa grudada em nosso coração.

Na vida espiritual, na reflexão filosófica e teológica, nas análises sócio-políticas, ouvimos e lemos mais sobre os homens; porém, a mulher é o húmus fecundo das palavras, a expressão espiritual que desperta o sagrado no humano. Em cada mulher está a mãe reveladora da nossa essência sagrada. Em cada mãe habita a corajosa guardiã de tudo o que é melhor e sublime em nossa vida. As qualidades humanas que ainda existem em nós foram moldadas pelos artesanais conselhos de nossa mãe. Quando caímos no poço fundo e escuro da nossa falsa ética, da nossa imoralidade, dos desenredos dos nossos erros; quando extraviamos a meta e perdemos o caminho; é exatamente nestes momentos, que nas lacrimosas retinas de nosso olhar aparece a figura da nossa mãe. É sempre a mãe que segura os desacertos de nossa estrada e nos coloca na boa condução de nossa existência.

Se um Deus é capaz de dar a vida por amor, há mães que se sacrificam para que seus filhos não morram. O Hinduísmo elevou a mulher à condição de divindade e fez dela uma Deusa. No Judaísmo, Deus falou mais com os homens, porém caminhou corajosamente com as Matriarcas (Judite, Ester, Ruthe ) O Cristianismo mostrou o Divino passando pelo ventre de Maria, a mãe de Jesus, o Filho de Deus que moldou sua força divina durante 30 anos no anônimo lar de Nazaré, junto com sua Mãe. Se olharmos a tradição das religiões existem muito mais mães divinas que pais reveladores do sagrado: Parvati, Kali, Lakshmi, Sarashwasti, Eva, Lilith, Ísis, Íris, Deméter, Afrodite, Vina e tantas outras presentes na fé e nos mitos, as Grandes Mulheres inspiradoras da vida.

A mãe sempre alertou em nós nossas obrigações espirituais. Ela que traçou em nós os sinais religiosos, decorou nosso quarto com o Anjo da Guarda, balbuciou preces, trouxe a oração à mesa, teceu ritos ,difundiu ensinamentos preciosos para a nossa vida interior, mostrou a qualidade da alma, nos levou ao espaço sagrado do templo, fez de nossa casa um santuário.

A mãe mostrou um amor puro, fontal, caseiro e perene. Há nela uma intuição, um sexto sentido que dificilmente falha, sensibilidade, coragem, profecia, capacidade de perdoar na mesma medida de sua capacidade de amar. Na primavera de nossa existência é ninho e flor. No verão é o brilho ensolarado do amor. No outono é a seiva escondida preparando novos e futuros frutos. No inverno é pousada e cobertor, chá e lareira acesa para esquentar o lugar.

A mãe é um modo encarnado onde o Divino fez de nossa vida uma bênção, um colo, uma casa, um abrigo, uma palavra, uma eternidade, uma honra e cuidado, um bem-estar, uma beleza e bondade, uma saudade que sai de nossos poros. De onde estiver, mãe, cubra-nos com sua presença e palavra sagrada! A bênção, mãe!

Sagrado Feminino - arquivo 05

Algumas reflexões sobre o Sagrado Feminino - 4

“Provei da água e do fogo do amor,
na chama onde se abrasa o coração,
e fui me dissolvendo como a água;
harpa que afina o amor ao coração.”
(Rumi)

Temos que afinar o nosso espírito, a nossa mente e coração lendo quem nos revela “o corpo transparente da palavra”. Queria hoje indicar uma leitura e uma audição. Leiam o fabuloso livro “Canto da Unidade: em torno da poética de Rumi”, de Marco Luccchesi e Faustino Teixeira, Fissus Editora, 2007; e ouçam repetidas vezes o belo CD: “Poemas Místicos do Oriente”, produzido e musicado por Marcus Viana, e na voz e incrível interpretação de Letícia Sabatella, da gravadora Sonhos & Sons. Nestas duas referências vamos encontrar textos da ensolarada figura do poeta persa Jalal-al-Din Rumi (1207-1273). Como diz a obra citada: “Um dos maiores expoentes da literatura mística de todos os tempos. Abriu portas e janelas do conhecimento humano para a compreensão do mistério maior do Amor e das verdades que conduzem ao incêndio divino”.

O que tem a ver estas obras com o Sagrado Feminino? Já dizia acima que precisamos afinar o espírito; temos que exercitar a sensibilidade, fazer valer um outro olhar do humano, aquele olhar que atravessa o tema do Amor como “chave essencial para a compreensão da espiritualidade”.

O Feminino filtra muita coisa pelo coração e tece o fio da trama capaz de “devastar os atalhos que velam o mistério que habita o coração de sua linguagem”. Como diz a obra: “O fio condutor é o tema do Amor, que inspira os buscadores na sua inflamada busca do Mistério maior. O coração aparece como o órgão sutil da percepção mística, capaz de refletir a riqueza multiforme das manifestações de Deus. Mas só aquele que vive a dinâmica de despojamento e abertura torna-se capaz de perceber sua presença sutil, terna e acolhedora”.

“Habita com teu canto os corações,
e segue alegremente noite e dia;
se cessas um instante, morreremos.
Teu canto é uma
flauta embevecida”
(Rumi)


Que a capacidade do feminino de irradiar naturalmente o Amor nos dê “a ousadia de ampliar o olhar e buscar captar dimensões escondidas de uma Realidade que traduz a razão mais profunda do nosso ser”. Os grandes místicos, os poetas, as almas femininas são “guias essenciais nesta travessia de olhar. Na sua experiência de intimidade com o Mistério maior, abrem caminhos inusitados de percepção do Real, firmando a cidadania de um outro mundo que habita o mundo, e que é impermeável às palavras. O Místico é aquele que consegue enxergar para além da rota conhecida, traçada no mapa do conhecimento usual, e captar a dimensão da experiência interna, servindo-se da lógica do coração e dos atalhos da inspiração”.

O Amor e a Mística andam juntos, aproximam o humano do divino numa natural fusão. “O místico é alguém que passa por um aprendizado que se dá por via direta do dom divino (...) conhecimento intuitivo de Deus, os místicos dão um passo além do conhecimento discursivo e apontam caminhos que indicam uma divina inspiração”. O Amor permite e favorece a percepção do brilho do Sol de Deus. “O Amor é, antes de tudo, ‘luz sobre luz’, um ‘oceano cuja profundidade é invisível’.” Ao falar sobre o seu mistério e charme “o céu canta”. Os seres humanos são como que gotas no oceano do Amor. “Deus é, sobretudo amoroso, e sua graça toca o coração de cada ser humano em momentos inesperados e faz ali sua morada”

“Teu amor chegou a meu coração e partiu feliz.
Depois retornou e se envolveu com o hábito
do amor, mas retirou-se novamente.
Timidamente, eu lhe disse: “Permanece dois
ou três dias!” Então veio, assentou-se junto
a mim e esqueceu-se de partir”

Segundo Rumi, o dom desta presença amorosa deve ser acolhido pelo ser humano com reconhecimento, com agradecimento permanente e, em particular, com muita gratuidade. “O Amor deve ser inteiramente gratuito, assim como é gratuito o envolvimento de seu abraço”. Voltemos ao tema do coração, “órgão sutil da percepção mística”, órgão que possibilita o conhecimento, a intuição compreensiva, a gnose, os mistérios divinos. “É no coração que se vê refletido, como num espelho, as diversificadas formas de manifestação de Deus”. “Aqueles que poliram o coração transcendem o mundo das formas e das cores e podem contemplar sem cessar a Beleza de cada instante”.

Que o nosso coração abrace estas palavras, que elas nos leiam; que nosso ouvidos façam uma profunda escuta da Voz do Amor.
Sagrado Feminino - arquivo 04