quarta-feira, 13 de outubro de 2010

o Círio de Nazaré

No segundo domingo de outubro, em Belém do Pará, o Círio faz da cidade uma pororoca humana. Todos os anos, desde 1793, em Belém, Santarém e Marabá, um fenômeno religioso e social acende a grande tocha da fé. A Virgem serena com seu Menino com traços amazônicos, a berlinda, um andor sobre rodas puxado por fiéis, a chuva de papel picado, foguetório, bandeiras, bandas, carros de anjos, de promessas, de milagres, barcos e velas e remos, a corda, o clero, a comunidade, as bandas, o povo, a massa de fiéis tocando este cordão umbilical que une céu e terra, humano e divino, sagrado e profano. O almoço, o pato ao tucupi, a confraternização dos parentes, este pacto das almas com sua Mãe e seu Deus vencendo as angústias terrenas no meio da festença.


Texto publicado na "Folhinha do Sagrado Coração de Jesus"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

BOAS FESTAS DE SÃO FRANCISCO!

Compartilho com vocês as palavras e vida de uma amiga, Viviane Noel, Poeta de Respiração e Ação, que mora em Petrópolis. É um testemunho vivencial necessário. É, neste ano, as palavras que assimilei e partilho para este dia celebrativo, e que dão mística para celebrar Francisco de Assis.


As coisas não encontram eco em nós, senão quando nos deixamos encantar por elas. Não é por uma simples decisão de seu querer que o homem pode libertar-se de sua vontade própria. Deixado unicamente ao poder de seu querer, o homem ficaria irremediavelmente agarrado ao seu eu, como o banco de areia do seu destino; não permitiria que algo diferente dispusesse de seu ser. Só o encantamento opera esse milagre, por uma espécie de arrebatamento. Arrebatando o homem fora de si mesmo, o encantamento despoja-o do seu eu e o abre a uma profunda comunhão com o mundo. É com razão que P. Ricoeur escreve: “É o encantamento da poesia que me liberta de mim mesmo e me purifica”. A humildade franciscana, aproximando tão estreitamente o homem espiritual das coisas da natureza e, por isso mesmo, das suas próprias origens obscuras, seria impossível sem o espírito de poesia e de louvor que a sustenta. (LECLERC, 1999, p. 228 e 229)


Para finalizar minhas palavras, que pela sua própria natureza de encantamento e de poesia, não permitem um fim em si mesmas, mas uma eterna continuidade de arrebatamento diante do sagrado na criação, compartilho com todos uma real história de comunhão e de poesia.

Há vinte anos, numa árvore no quintal de minha tia, havia um ninho de tico-ticos. A mãe os alimentava constantemente, era aquela algazarra no ninho. Até que, numa manhã ensolarada, o gato de uma prima minha, muito esperto, subiu na árvore, derrubou o ninho e começou a devorar os pequenos passarinhos. Minha tia correu na tentativa de acudi-los, mas apenas um pôde ser salvo.

Sem saber ao certo o que fazer com aquele filhote, minha tia o entregou em nossa casa. Era tão indefeso, inocente e encantador. Tínhamos um bebê em casa, “um bebê de verdade”, comemorávamos meu irmão e eu. Nós o alimentávamos com papinha de fubá, pedacinhos de pão molhados no leite e frutas. Fizemos um ninho para ele de franelas. Era o nosso xodó! E seu nome: Pedrinho!!!!

O tempo foi passando, ele foi crescendo, suas penas também! Aos poucos, fomos incentivando-o a voar. Ele começou a bater as asas e a voar rasteiramente no colo do irmão vento. Ele gostava de ficar nos galhos das pequenas árvores em nosso quintal. Gostava também quando abríamos a mangueira e, com a água que escorria pelo chão formando poças, ele brincava e se banhava. Quando se cansava da farra, abria o bico e as asas para abraçar o irmão sol, que o aquecia depois de ter se refrescado com a irmã água.

Apesar de todo incentivo, Pedrinho não parecia querer bater as asas de vez. Formamos uma família! Ele crescia saudável e encantador, piava todas as manhãs até que déssemos bom dia a ele. Ele aguardava ansioso pelo café da manhã, não podíamos comer fruta alguma sem que o oferecêssemos também e ele não negava nenhum oferecimento, mas tinha predileção por melancia.

Pedrinho conhecia o barulho do carro de meu pai e fazia festa no poleiro, assim como nossas vira-latas faziam no quintal. Acompanhava minha mãe que cantarolava ao lavar roupa. Reconhecia de longe a voz e o assobio de meu irmão. Era um verdadeiro companheiro! Ele dormia numa gaiola, mas vivia grande parte do seu dia passeando pelo quintal ou mesmo dentro de casa. Era a atração da família. As crianças o adoravam, pois ele gostava de subir em seus pés, enquanto descansava um pouquinho. Tínhamos que ficar muito atentos com seus passeios pelo quintal, pois Pedrinho não tinha a menor preocupação com o perigo, todos os animais para ele eram amigos. Não temia nossas cadelas, nem mesmo os gatos dos vizinhos que se lambiam ao vê-lo.

Lembro-me de um dia em que eu estendi uma toalha no chão para pegar um pouco de sol. Deitei na toalha, enquanto o observava em suas andanças, ciscando na areia e beliscando algumas plantinhas. Quando eu menos esperava, Pedrinho estava ao meu lado, em cima da toalha, com asas e bico abertos. Que delícia de companhia! Eu curtia muito agarrá-lo, pois era muito fofinho, mas ele ficava bravo e me pinicava.

Por dezessete anos ele viveu em nossa companhia. Pedrinho foi meu companheiro de infância, de adolescência e de uma parte da minha vida adulta. Ele presenciou e fez parte de grandes transformações dentro e fora de mim, assim como da minha família. Quantas vezes desabafei com este amigo e pelo girar de seu pescoço e pela forma como piava, duvido que não me entendia.

Há dois anos, ele começou a apresentar alguns sinais de velhice. Um veterinário, criador de pássaros, ao saber da história dele, ficou boquiaberto, pois afirmava que jamais conheceu um tico-tico que tivesse vivido tanto tempo. Era fruto de muito amor e muito cuidado.

Pedrinho já sentia o peso da idade. Sua gaiola teve que ser adaptada para suas necessidades. Seus olhos já não enxergavam mais como antes, não havia mais firmeza em suas finas perninhas e seu canto já não mais ecoava pela casa. Doía acompanhar a irmã morte se aproximando de nosso tão querido amigo. Doía muito. No dia dois de outubro de 2007, brinquei no quintal com Pedrinho pela última vez. À noite, coloquei um pedaço de laranja para ele e, imediatamente, começou a bicá-la, ele se deliciava com as frutas. Minha mãe tapou sua gaiola e fomos todos dormir.

No dia seguinte, dia três de outubro, ao levantar para trabalhar, meu pai repetiu o rito de todo dia, ligou o rádio - Pedrinho gostava das músicas no rádio, cantava junto com elas - e foi levar um pedacinho de mamão para o Pedrinho. Nós sempre brincávamos dizendo que Pedrinho devia achar que meu pai era um mamão gigante, pois só lhe dava mamão todas as manhãs. Mas quando meu pai destapou a gaiola, Pedrinho estava caído morto em seu fundo. Que dor! Mas seu semblante era belo, estava em paz. E para a minha surpresa, o meu querido pássaro partiu no dia do trânsito de São Francisco, uma bela data para um pássaro alçar seu mais belo vôo!

Ainda escuto seu canto, ainda procuro por ele, ainda como frutas pensando em dividir com ele e não há um pássaro no céu ou na terra que não me faça lembrar do meu tão amado Pedrinho.

Foi na poesia e na amizade que minha alma encontrou, na natureza de um pássaro, o totalmente sagrado, a verdadeira irmandade, a verdadeira comunhão que se dá nas diferenças. E junto com o canto do Pedrinho que ecoará eternamente dentro de mim, louvo a Deus por todas as criaturas, especialmente o irmão Francisco que, ainda hoje, tem tanto a nos ensinar e a nos encantar!

Voe Pedrinho, voe com o irmão Francisco! Ouço o cantarolar de vocês dois e sinto uma alegria infinita em minha alma!