terça-feira, 25 de maio de 2010

A 329ª TREZENA E FESTA DE SANTO ANTÔNIO do Convento de Santo Antônio - RJ

São mais de três séculos da maravilhosa Trezena e Festa de Santo Antônio no Largo da Carioca! É o ritual, o louvor e graça, Deus e seu Santo, a alegria e a festa, a piedade, sinais, cantos, pregações, bênção, muitas bênção! O rito é a repetição do mesmo, mas não é rotina. O rito diz as mesmas palavras que contem a verdade do Mistério de Deus na vida; de tanto dizer e repetir, um dia há o encontro com esta verdade. Há pessoas que buscam e sentem isto no dia-a-dia; há pessoas que precisam de tríduos, novenas, dozenas e trezenas para organizarem o seu modo de orar e amar. Não é o tempo cronológico, nem a quantidade de dias, mas sim o tempo oportuno da Graça.

O eu humano mergulha no tu divino pela intercessão de Santo Antônio. O povo vem, faz a promessa de não perder nenhum dia, dá o seu passo! Na espiritualidade tudo começa por um passo; é a mística do santuário. É preciso ir lá para buscar e encontrar. “Onde está o teu tesouro aí está o teu coração”(Mt 6,21). Santo Agostinho diz: “Conservai antes de tudo o Amor a Deus, para que, como Deus é eterno, também vós vivais eternamente, já que cada um é como seu Amor”. O povo vem para a Trezena buscando a Palavra, a Prece e a Bênção. Povo de Deus, povo de louvor e da bênção, seres divinizados. O povo sobe o morro do Convento buscando um lugar sagrado. Quanto mais alto sobe, mais alta é a sua fé, a sua energia, o seu amor e mais alto é o ensinamento que é oferecido. Por isso, na Trezena há Pregadores e Pregação que vão animar o povo a bendizer, isto é, dizer bem os inúmeros benefícios; transmitir a Palavra e a Vida que vem de Deus; mostrar que a família verdadeira é aquela que nos ajuda a atingir o espiritual e uma melhor compreensão de mundo e de todos os detalhes da existência. A Trezena é uma viagem de transformação.

O povo vem para a Trezena e para a Festa e aqui encontra seus objetos sagrados, a comida, a bebida, as celebrações, a confissão, a relíquia, a comunhão eucarística, a alegria e o agito da multidão em festa. O humano religioso é assim: desprendido, natural, feliz, confiante e perseverante. Sabe que o amor é identificação e aproximação. O que falta nas religiões é trabalhar bem o afeto, e nisto Santo Antônio é um grande mestre. Ele é o intercessor de orações e bênçãos. Orar é enviar bênção a todos. Abençoar é criar um antídoto contra a negatividade. E Santo Antônio acolhe a todos na positividade da Graça! Venham para a Trezena e para a Festa, acendam as velas! Se há uma luz acesa em sua vida e em sua casa, a escuridão não poderá entrar! Que a sagrada ternura de Santo Antônio nos ilumine! Boa Festa de Santo Antônio a todos!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Festa do Divino

Esta festa, tão brasileira hoje, teve o ontem de Portugal, a rainha Santa Isabel e o rei Dom Diniz e a construção da Igreja do Espírito Santo de Alenquer, lá pelos fins dos anos de 1200 e inícios de 1300. No Brasil, a primeira Festa do Divino é de 1761, em Guaratinguetá, SP. Rica  em simbologia, esta festa traz a Pombinha Branca representando o Espírito Santo. As bandeiras brancas e vermelhas enfeitam ruas, palanques, casas, portas e coretos. Crianças e adultos se enchem de majestade na época de Pentecostes. É  momento de agradecer a abundância dos primeiros frutos, a colheita, a partilha e, sobretudo, a ajudar os menos favorecidos. Sob o ritmo das congadas, jongo, moçambiques, batuques que misturam o jeito caboclo, o caipira no canto, a bandeira segue no fandango e cateretê. O Divino desce e arma seu império entre nós!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Maio, o mês dedicado à Mãe de Deus

A mística franciscana diz que espiritualidade e afetividade não se separam. Maria é o afeto encarnado de Deus. A emoção e a ternura de nossa fé, que vindo num mês, numa festa, numa comemoração, vem para sempre. Maio inspira, pela mediação mariana, o jeito suave, sincero, filial, obediente e prazeroso da fé. Em Maria, Deus se fez família, é Filho, tem pai silencioso e trabalhador; tem lar e colo de uma mãe compreensiva e companheira. Na família, percebemos os mais vivos modelos do que entendemos por espiritual.

É preciso ter amor e cuidado para com nossas forças interiores. É preciso alimentar, num mundo agressivo e tenso, as nossas qualidades que moldam em nós a sensibilidade, a alegria, o carinho, a força amiga, a segurança, a tranqüilidade, a beleza e a gentileza. Que façamos disto uma nova e evocadora ladainha de cada dia e aprendamos o jeito de Maria. Obra prima da criação divina, Maria é a eterna energia de Deus, alimentando a nossa fé, não de um modo abstrato e vazio, mas muito próximo, íntimo e acolhedor. Em Maria, Deus quis experimentar o mais profundo do sentimento humano; e no Deus que nasceu de seu ventre, o humano experimenta sua carne divinizada.
Diante da Mãe de Deus, com os olhos fixos em seu olhar, percebemos que tudo é bpm e sagrado. O belo e o bom acontecem de um modo simples e espontâneo, sem forçar nada. Maria é o natural da reza e do rito. Em Maria, a prece flui naturalmente, nem precisa ser criada, ela já existe, ela já está ali. Em Maria, aprendemos que Amor é identificação e aproximação. Ela, com seu corpo e estado virginal, permitiu Deus se tornar visível. Deu à Luz a um Deus simples e singelo. Que Maio nos faça recordar esta verdade.
Imagem: Nossa Senhora, de Simone Martini

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Santuários, peregrinações, romarias e caminhadas

Diabo é às brutas, mas Deus é traiçoeiro. Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz na lei do mansinho - assim é o milagre!" (Guimarães Rosa)


Minhas Amigas, Meus Amigos,
Paz e Bem!
Trabalhar num lugar como o Convento e Santuário de Santo Antônio, no Largo da Carioca, Rio de Janeiro, é participar da caminhada de um povo. Aliás, a palavra caminhada é muito usual entre os devotos brasileiros. Vem lá do dinamismo ainda presente das comunidades eclesiais de base. É uma palavra que revela um novo modo de compreender a vida cristã. Só caminha quem está perseguindo, buscando, almejando alguma coisa. O povo mais ligado à consagração religiosa chama isto de Seguimento. Se olharmos o Evangelho de Lucas, os Atos dos Apóstolos e a grande travessia do povo bíblico desde suas origens estamos indo em direção à Terra Prometida.

Hoje, com mais força ainda, temos as romarias, peregrinações e caminhadas. De ônibus, carros, cavalos, a pé, caminhões e avião, bicicleta, e no nosso caso aqui, de metrô, as pessoas buscam os santuários nacionais, locais, continentais em tradições de datas, promessas e preces repassadas de geração em geração; em práticas sensacionais da religião popular. Fazem disto um tempo forte de imensa vivência religiosa, onde há visivelmente o encontro simbólico do santo com o povo, num contato direto. Toda manifestação explícita religiosa tem importância para a consolidação da fé.

Quatro meses ainda é muito pouco tempo, mas já dá para, nas minhas observações, ver a experiência pessoal e coletiva de motivos, buscas, sonhos e aflições; do sair de casa, de caminhar sozinho ou ao lado de alguém ou de muitos, chegar ao lugar esperado do encontro, retornar para o lugar de origem, possivelmente marcado pela força de uma aproximação com o sagrado (não podemos esquecer que muitas romarias são apenas turismo religioso; agências de viagens, guias e organizadores que levam apenas para a atração da festa tradicional em algumas cidades, mas isto é uma outra prática. Muitos preferem o pastel, coxinha e cerveja gelada, e depois aquela canequinha "do estive lá e lembrei de você". Nada de reza! O que eu quero relatar aqui é a prática da religiosidade popular como real busca de Deus).

Os Santuários são lugares teofânicos, isto é, lugar onde o Sagrado se revela e toca o devoto de uma maneira original. Espanhois e portugueses trouxeram para nós da Europa esta prática organizada, mas já encontraram aqui lugares fortes, onde a figura de Jesus, sofrido e humilhado, da Virgem mãe bondosa e terna, santos e santas, estão sempre presentes como intermediários poderosos. É o espaço dos ritos, narrativas, objetos sagrados, lendas ingênuas, milagres, velário, banda de música, cânticos e procissões que passam pela têmpera do povo e se tornam uma referência de esperança e certeza de que, naquele lugar, Deus ouvirá o clamor de seu povo e o livrará de seus males.

Ir a um Santuário é como percorrer um caminho de terra desconhecida e inóspita; é refazer a epopeia de Ulisses no relato de Homero, ou dos nossos Guaranis na busca da Terra sem Males. A dureza da caminhada e da longa viagem chama a atenção para a ideia e o real de que a vida é difícil, e a via que leva para o alto supõe superação e conversão. Num Santuário, o fiel cumpre um ritual de tipo penitencial e purificatório. É mística popular mesmo! A penitência se mistura com a alegria, a reza com rojões, a confissão e promessas terminam com frango e farofa, porque tudo é um grande encontro de parentesco, fé, lazer e souvenirs, emoção e a certeza: "Enfim, cheguei!"

Peregrinação, romaria, caminhada é sentir que, depois de ter percorrido um certo caminho, há o encontro, físico e espiritual, com o outro diferente e igual ao mesmo tempo. Não há prática assim que não leve a uma mínima ou sensacional transformação. É o instante da unificação do humano e sagrado, da regeneração moral. Deus é fato social e coletivo, porém é afirmado para além da sociedade. A emoção aí vai também além da racionalidade. Ir a um Santuário é um Ritual de Passagem. Entendam isso com tudo o que descrevi até agora acrescentando os laços entre pessoas e Deus. É o reavivamento da imagem e semelhança. Toda a questão, para nós que estamos aqui, na acolhida deste povo, é ajudar a transformar esta busca ocasional e dispersa em laços duradouros e consciência de pertença; e a delicada orientação para que não haja uma contaminação supersticiosa ou um escapismo espiritual.

Santuário é itinerário de fé, sinal de identidade pessoal e coletiva, reencontro com raízes puras da crença, e aquele sonho de estabilidade, confiança e maturidade psicológica, religiosa, cristã e humana. Aqui entendo muito o que São Francisco dizia para nós: "Nosso claustro é o mundo!"

Para chegar ao Convento de Santo Antônio não é muito simples. Tem escada íngreme com desconfortáveis degraus para subir e descer, elevador apertado e sufocante, uma praça com chocante exposição de miséria humana em todos os sentidos, tem a agitação, barulho e sujeira típica de centro de cidade... Porém, quando se chega ao Santuário, é como se isto tudo nada existisse. Há calma, silêncio, ritos e preces. Uma ilha, um oásis, uma misteriosa fonte na metrópole... Muitos prédios que nos cercam, envolvem e nos olham com estranha curiosidade...