quarta-feira, 28 de abril de 2010

Santuários, Pastoral Ordinária e Extraordinária

Minhas Amigas, Meus Amigos

PAZ E BEM!
Desde 25 de Janeiro, estou morando no Convento Santo Antônio do Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. Fui transferido para cá no último Capítulo Provincial para ser o Reitor do Santuário. São cinco os Santuários constituídos em nossa Província: Convento Nossa Senhora da Penha, Vila Velha, ES; Santuário Mariano de Angelina, SC; Santo Antônio do Valongo, Santos, SP; e Convento São Francisco, SP, e este onde estou agora.
Tenho que dizer uma palavra sobre o que chamamos de Pastoral Ordinária e Extraordinária, e assim estabelecer uma diferença entre Paróquia e Santuário. Muitos me perguntam se sou pároco aqui; não... pois não é uma paróquia. A Paróquia tem uma Pastoral Ordinária, isto é, está na ordem, nas normas, nas leis da Igreja que conclamam a fazer o que todos precisam fazer normalmente e de maneira Organizada e com muita continuidade. É a manutenção cotidiana da fé através da comunidade paroquial e suas pequenas comunidades (capelas): batizado, eucaristia, crisma, casamento, celebração de exéquias, orações comunitárias, celebrações... A Pastoral Extraordinária se caracteriza pela surpresa, pelo fazer aquilo que sai da rotina, algo diferente, as pessoas procuram o Santuário sem pertencer aquela comunidade , vem de todos os lugares, há peregrinação, busca, passos, crises, choque, superação, conversão, instantes decisórios na vida da pessoa, bênçãos, unção, confissão, direção espiritual, aconselhamento, busca individual, agradecimento de favores, milagres, pedidos com muita esperança, alegria, fé e lágrimas.

Ambas são Pastorais necessárias e complementares. Ambas são dirigidas ao mesmo ser humano, mas em circunstâncias diferentes. O extraordinário por ser extraordinário não acontece sempre, não conhece rotina. São Francisco, no seu tempo reconstruiu porciúnculas, isto é, pequenas igrejas à beira da estrada para atender o povo de um modo melhor.

O Santuário vive uma religiosidade mais popular e não se prende muito a rituais pré-estabelecidos. Quando há ritual tem que se expressar com sentimentos de gratidão, esperança, força divina e manifestação de conversão e sempre aquela sensação de que o Santuário é uma Festa (nisto os nordestinos são especialistas!). A Paróquia trabalha com grupo determinado; o Santuário trabalha com a massa. Em geral, quase todos os Santuários ficam num morro, sobre uma montanha ou num lugar mais elevado.... é o cume, a aproximação da divindade, o lugar próximo do céu, a escada para subir até Deus.

Numa semana já trabalhei muito com horas e horas de atendimento ao povo que vem aqui diariamente, mas, todas as terças feiras, uma multidão sobe até o nosso Convento pedir a bênção de nosso confrade Santo Antônio de Pádua e de Lisboa e do Largo da Carioca. Ele acolhe a todos e divide conosco a atenção aos devotos. Para o nosso Confrade Santo, o povo pede a bênção, pede força afetiva no Amor, pede pão, emprego, pede graças entre achados e perdidos, pede os lírios, pede o que o coração pede... Para nós, confrades do Confrade Santo, eles pedem a Eucaristia, a bênção, a unção, a confissão, o perdão, e o tempo que for preciso de nossa atenção... No Santuário, o povo cansado de falar sozinho, encontra uma paciente escuta da franciscanada!

Com abraço fraterno,

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Francisco e a natureza

Para as culturas clássicas, não judaicas, a natureza não passava de um aglomerado de divindades boas ou más. Os céus, os campos, os regatos estavam povoados de deuses, e uma grande variedades de seres benfazejos ou não. Até meados da Idade Média, a natureza permanecia marginalizada.

E, então, que surge na Úmbria, em Assis, um jovem extravagante que, em meio a uma existência burguesmente acomodada, descobre um ponto fundamental na história da criação: o homem foi criado por Deus, a natureza foi criada por Deus, logo o homem e a natureza são igualmente criaturas de Deus, irmãos por filiação divina. E reconcilia, em seu espírito, a humanidade com a natureza. Com esta visão, Francisco comportava-se como um novo Adão ao dar nome a todas as criaturas. Uma árvore não será um mito pagão, mas apenas uma árvore. A estrela será apenas estrela e não Vênus. O fogo será apenas fogo, e mais do que isso, irmão fogo! Todas as criaturas parecem estar sendo renovadas à medida que Francisco se identifica mais como criatura de Deus. Antes de Francisco, outras figuras de relevo na espiritualidade cristã viveram em contato com a natureza, mas não sentiram com tanta clareza a sua condição de co-irmãs criaturas.

Francisco não consegue tudo isso de repente. Esse amor foi progredindo à medida em que se abnegava a si mesmo. Esvaziava seu coração das coisas terrenas e o enchia das coisas celestes. Então, via Deus nos mais leves traços e nas mais insignificantes alusões a Deus e o amava assim, presente e percebido.

Ainda hoje admiramos Francisco a sua relação com a natureza, embora muitos não compreendam a profundidade do gesto. Através das criaturas, Francisco chegava diretamente a Deus, num amor puro e límpido. Não que ele desejasse possuir a coisa criada. Francisco não quis se aproveitar. Ele quis com as criaturas louvar a bondade, a sabedoria, onipotência e providência de Deus. A renovação espiritual iniciada por Francisco não ficou restrita apenas à visão contemplativa da natureza em si; toda sua cultura, a começar pela manifestação plástica e poética foi revificada, restaurada, engrandecida. Francisco, ao restabelecer a harmonia primitiva entre o homem e a criação, tornou-se hoje o merecido padroeiro da Ecologia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Perfeita Alegria

Reparto aqui a reflexão em grupo durante estudos das Fontes Franciscanas:

Reflexão a partir do texto sobre a Perfeita Alegria, I Fioretti - Do ensinamento de Fr. Francisco a Fr. Leão que a Alegria Perfeita se encontra na Cruz.

1. 0 texto nos fala de uma experiência, que surgiu na paixão de uma procura na qual Francis foi afeiçoado. Podemos dividi-lo em três partes:

a) A primeira parte diz que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem.
b) A segunda parte nos apresenta a Perfeita Alegria, como o caminhar que se manifesta em cada passo da caminhada como concreção de si mesmo.
c) A Terceira parte nos mostra a conclusão do texto: a Perfeita Alegria é a Cruz que se manifesta no vencer-se a si mesmo.

2. Francisco, na primeira parte do texto, nomeia para Frei Leão uma série de obras extraordinárias e diz que mesmo que o frade menor consiga realizá-las em sua vida, nisto não está a Perfeita Alegria. Com isso, ele quer dizer que a Perfeita Alegria não vem do homem com tal, não consiste no seu fazer, por mais extraordinário que ele seja. Frei Leão não entende esse modo de falar e, admirado pergunta: “...onde está a Perfeita Alegria?" Aqui começa a segunda parte do texto.

3. Francisco aproveita a viagem de Perusa à Santa Maria dos Anjos, e aí, nesta realidade situacional bem concreta, exemplifica onde está a Perfeita Alegria: "... então se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos (...) escreve que nisto está a Perfeita Alegria." (I Fioretti, 23). Em seguida retoma por mais duas vezes o mesmo exemplo insistindo sempre na mesma tecla: A Perfeita Alegria consiste em suportar o que está aí. No exemplo dado ele indica o que suportar e como suportar.

Confrontando as duas primeiras partes do texto, num primeiro relance parece que elas não são muito claras no que afirmam. Primeiro, diz que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem, mas na relação das obras que ele nomeia, normalmente consideramos como obra de Deus e não do homem. É possível que Francisco nos queira dizer outra coisa; talvez que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem, simplesmente por ele ter sido agraciado pelo fazer de Deus.

Não é o fazer milagres, o conhecer todas as ciências e o converter os homens à fé cristã o princípio da Perfeita Alegria, ela está numa outra dimensão. Mas acontece que ao afirmar na segunda parte onde ela se encontra, Francisco nos deixa na mesma dúvida, pois dizendo que é preciso suportar injúrias, crueldades, maus tratos sem se perturbar, sem murmurar etc, ela está indicando o que é preciso fazer para estar na Perfeita Alegria. Nesta compreensão do texto, podemos contestá-lo, porque pelo que aparentemente aparece, a Perfeita Alegria está na dependência desse modo de ser, que em última análise, requer o trabalho que o homem faz sobre si mesmo para chegar a este comportamento. Mas será que não é o outro o sentido do fazer neste modo de ser da Perfeita Alegria? Se é, então, a Perfeita Alegria não depende do modo de ser, mas ela é este modo de ser apontado no texto.Vamos tentar ver como se dá o modo de ser da Perfeita Alegria.

4. O texto nos diz que ela consiste em suportarmos toda a realidade da vida que nos surpreende, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos, etc. Portanto, a porta pela qual Francisco nos introduz à compreensão do que ele expõe está na palavra suportar repetida em cada uma das situações do exemplo dado.

O que significa suportar? - Suportar é o modo de ser que assume toda a realidade situacional que se nos apresenta. Esta realidade é o que somos. Não existe fora de nós. Está inserida no acontecer de cada indivíduo. Suportar o que nas advém é assumir o que somos. A Perfeita Alegria está na positividade deste assumir. A positividade consiste em sermos todo a situação, em penetrarmos e movimentar-nos nela, num envolvimento total em que situados nos tornemos o interior da realidade situacional.

Tornar-se o interior da realidade é ir ao âmago da mesma, é ser todo n'aquilo que a institui. Francisco diz que, quem está nesta interioridade, suporta a vida com paciência, com alegria, prazenteiramente, sem se perturbar. Neste modo de ser, não existe abertura de possibilidades, mas somos a própria possibilidade que caminha em busca de si mesmo. Isto significa que interioridade deste modo de ser é a própria possibilidade daquilo que se é. Interioridade é o que leva o indivíduo a assumir a sua realidade na tentativa de se descobrir nela. É o que torna possível este processo de caminhada. Parece ser esta a estrutura da realidade situacional, indicada por Francisco no diálogo
com Frei Leão.

5. Ambos voltam à Santa Maria dos Anjos. Santa Maria não é um simples lugar, mas o ponto de partida de um encontro onde surgiu o processo da caminhada e, caminhando, explica ao Frei Leão em que consiste o caminho que ele chama de Perfeita Alegria. Ela consiste em assumir toda e qualquer realidade, com todo o peso que a mesma suporta (comporta), insistindo e persistindo nela a fim de penetrá-la para descobrir o sentido que nos constitui nesta realidade que somos nós mesmos.

‘‘Se suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo os quais devemos suportar por seu amor (...) aí e nisto está a Perfeita Alegria” (24).

Já vimos que suportar significa assumir o que somos, aguentar o próprio peso de nós mesmos. Mas não basta isto, é necessário assumirmos pacientemente, com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo.

Assumir pacientemente é ser assumido pelo que nós fazemos, deixando-nos fazer por aquilo que está aí resguardado no acontecer do dia-a-dia.

Assumir na paciência é caminhar vigorosamente para o coração d'aquilo que nos faz ser o que somos, na realidade em que nos situamos.

Caminhar para o coração é assumir tudo na cordialidade, é se entranhar no que se apresenta na tentativa de ir sempre à sua raiz.
No rigor desta tentativa somos tomados por um vigor que nos lança ao interior de nós mesmos, de modo que, em tudo haja esta penetração envolvente que não se fixa nas aparências da realidade, mas nos completa nela, levando-nos a unicidade de todas as coisas, a partir da cordialidade da vida que aflora em todo o nosso existir.

A Perfeita Alegria é a caminhada que se dá na cordialidade. É o modo de ser daquele que coloca todo seu existir na busca desta interioridade.

A interioridade desta busca é Cruz. Cruz é estar tão dentro de si mesmo que nada mais nos importuna, mas tudo se suporta na solidão da paciência. Nisto está a Paixão de Cristo que devemos pensar, a Cruz na qual podemos nos gloriar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A libertação pascal (revisitada)

Publico aqui o texto do meu amigo Paulo Palladini:
"Nosso Deus não é um Deus morto, mas um Deus vivo", afirmou certa vez o arcebispo Dom Helder Câmara em sua mensagem pascal. E, provocativo, desafiando nosso cristianismo mambembe: "É fácil ser cristão de nome, de tradição, porque nossos pais nos batizaram. Não é fácil ser cristão de verdade”, isto é, viver o evangelho. Oportunas as palavras do velho arcebispo, o militante das causas apaixonantes. São muitos a falar em nome do Filho, em nome do Cristo. Dom Helder confronta o formalismo das práticas religiosas com o valor de uma vivência verdadeiramente cristã. Alerta-nos para a ênfase que é dada ao Cristo morto, à sua paixão e morte, em contraste com a ressurreição. Para ele o sentido maior da Páscoa Cristã é exatamente a ressurreição. "Vamos abrir muito mais espaço em nossa vida para a Ressurreição", conclamou. Proveniente da palavra latina ressurrectione, ressurreição significa ressurgir, de modo figurado morrer e renascer para outra vida, deixar morrer o passado, e reviver com outros valores. Notem que aí está contida a idéia de esquecimento; somente é possível ressurgir para uma nova vida se o que a pessoa foi no passado for esquecido. Para isso é preciso o perdão, tanto para si como para os outros. Porque "tudo isso só terá valor real na medida em que abrir nossos olhos e nos fizer descobrir o Cristo vivo que está em todo aquele que sofre, especialmente nos pobres, nos humilhados e oprimidos". "Ai de quem não abre sempre mais os olhos para o Cristo em quem sofre, em quem precisa da nossa compreensão e do nosso amor. De quem precisa de ajuda, mas, sobretudo, de justiça"... completou. Sua mensagem é clara e pode ser aplicada tanto à nossa vida material como espiritual, opondo assim a verdade à mentira, o altruísmo ao egoísmo, a justiça à injustiça. Pertencer a uma igreja não garante nada disso, nem a participação em todos os rituais é garantia, nem todas as rezas e orações, nem todos os sacramentos, se a pessoa não se fizer impregnar de uma profunda vivência religiosa. Um olhar comprometido com o sofrimento do outro. "Cristo liberta de todas as prisões". A Páscoa tem, para nós, o mesmo sentido de libertação que tem para os judeus. Não nos esqueçamos que esta celebração é de origem judaica, Pessach, quando é comemorada a libertação dos judeus do cativeiro no Egito há mais de três mil anos. Na tradição judaica é a festa do triunfo sobre o cativeiro, na tradição cristã, a festa do triunfo sobre a morte. Nas duas, a possibilidade de uma existência renovada.
Leia www. pc.palladini.zip.net