quinta-feira, 25 de junho de 2009

Frei Prudente Nery OFMCap


Semana passada, entre os dias 19 e 20 de junho fomos surpreendidos com a morte prematura de Frei Prudente Nery. São estas peças que a vida prega na gente e ficamos estupefatos, sem palavras, naquele silêncio reverente diante da vida e da morte, tentados pelo absurdo. Conheci Frei Prudente em Petrópolis, entre 1974 e 1979, nos corredores e, salas e Aula Magna do Instituto Teológico Franciscano.

Éramos 103 frades estudantes plenos de vida, sonhos e pensamentos. Ele era um estudioso sério e leve ao mesmo tempo. Nele, a Teologia, Filosofia e Poesia eram uma coisa só. Músico, pensador e artista se aninhavam ali numa harmoniosa mescla de canções, palavras e simpatia. Lúcio Eutásquio, Benedito de Paula, Prudente Nery, Ildeu Magalhães, Marcos Montagnoli marcaram minha vida assim como nossos mestres de então.

Talvez não guardei tudo da Filosofia e da Teologia, mas estes nunca mais saíram da minha alma. Grudaram ali para sempre numa mistura de Mircea Eliade, Drummond, Boff, Buzzi, Heidegger, Chuang Tzu e Minas Gerais. Este grupo foi o primeiro e autêntico Clube da Esquina que eu conheci. Toquei muito violão com eles e me quedei tiete a ouvi-los. Naquela época, éramos uma juventude danada de coisas sadias e "pensamento que pensa".

Prudente Nery era um silencioso líder nosso. Não digo guru, porque ele sempre abominou isso, mas que ele tinha um jeito, uma palavra, uma vida diferenciada, ah! Isso ele tinha. Seu jeito terno e sua fala mansa já antecipava o grande filósofo, poeta, teólogo e cantador que ele se tornou. Seus textos fecundos sempre ficaram escondidos como ele, mas quando vinham à luz...que Luz!

Original, criativo, surpreendente, místico. Hoje, Prudente se juntou ao Hermógenes Harada. O Franciscanismo, aqui na terra, perdeu dois grandes pensadores, mas o céu ganhou bons Seminários de Fenomenologia do Espírito.

Sempre garimpei as palavras, textos e pensares de Prudente Nery. Um dia, Irmã Iriete Lorenzetti, anotou falas de Prudente numa rara aula. Ajuntei estas e outras pérolas de sua fala.

Divido aqui com vocês num raro e inédito momento de um poético pensar Prudente:

Podemos renegar a Jesus... mas a melodia de nossa voz trai que estivemos próximo dele.

Só os Anjos conseguem, na sua delicadeza, arrancar a pedra dos corações tristes.

As estrelas do céu nos dizem mais dos mortos do que uma sepultura. Procure entre as estrelas aquele que está mais próximo de você que antes.

Para todos aqueles que tem o coração em Deus, a morte é um dormir em seus braços.

Não existe morte, mas uma transposição de muros.

É sempre o Coração que primeiro percebe as verdades essenciais da vida.

A vida só é possível à luz da fé... abrindo as paredes do medo.

O mais perigoso é ficar e morar nas garras do medo. É preciso sair para fora. Olhando nos olhos do risco. A vida é cheia de riscos.

É mil vezes melhor perder a vida do que enterrá-la na sepultura do medo.

Por mais que caiamos na vida, nunca cairemos mais fundo do que nos braços de Deus.

Na frieza de nossa vida também habita Deus.

O ser humano não é perverso em si mesmo, apenas desajeitado. É alguém de coração ferido.

A graça se compõe no chão da natureza, e faz com que ela mostre todo o seu vigor.

Não se prenda ao que está à direita ou à esquerda. Olhe para frente e siga Jesus.

É impossível instaurar qualquer paixão por alguém, se não nos apaixonarmos pelo mesmo que esta pessoa ama.

Francisco sentia Jesus Cristo como sua alma gêmea.

Do rosto de Jesus retiramos a Beleza de nossa vida.

Existe só uma forma de se falar de Deus para a Humanidade: quando nas asas de nossa fala, transportamos o humano para Deus.

O vinho e o pão tem o sabor da ausência Daquele que agora é mais presente.

Ter fé é não acreditar que somos filhos de um pai e de uma mãe, mas do gracioso encontro do Finito e do Infinito, da Mãe Terra e do Pai Céu.

Cada filho que nasce é filho da virgem Mãe Terra, útero que se abre e fecha a cada vez.

“A obra de arte é uma mentira que nos faz ver a mais profunda verdade das coisas”, este pensamento é de Picasso, mas como gostaria que ele tivesse vindo das minhas entranhas.

A moral consegue muitas coisas, só não consegue abrir as portas do coração.

O diálogo só acontece quando quebramos nossos preconceitos e pisamos na terra do outro.

Quem faz a experiência do Amor sabe ter limites.

Quem está em paz sabe muito bem o que deve fazer.

Mendigos somos quando refletimos e deuses somos quando sonhamos.

É mais nobre enfrentar a morte de cabeça erguida do que ficar no matadouro de cabeça baixa.

A bondade é muito frágil diante dos bombardeios da vontade.

Tudo o que cair sobre a pedra se quebra, mas se deixar ela cair sobre si, sentirá o peso de ser esmagado.

As pessoas que mais precisam de ajuda, mais temem ser ajudadas.

É possível matar a vida do humano, mas não é possível trancar o coração de Deus.

É mais nobre morrer por uma causa do que por acaso.

Não sei que acaso levou Prudente para a Eternidade. Só sei que suas palavras ficarão para sempre em nós, do mesmo jeito que cantávamos os "Fragmentos de uma Canção quase Rude":

“Sê no teu modo como a onda calma... Quem vem na praia e despedaça e só. E traz na crista o quem lhe vem lá d’alma. E deita areia sem pensar sem dó. Se ave pois que vida toda voa. E a tarde vem ao ninho pra dormir. Se alguma coisa assim à toa, que tão inútil deixa de existir... Sê noite, sê luar e sê mais nada... ou pedra ou terra onde o frio habita...”.

Só sei Prudente que você permanecerá aqui como esta onda calma...

Início do Ministério de D. Bernardo: “Uma inundação de contentamento”


Estive em Óbidos (PA) para a posse de Dom Bernardo Johannes Bahlmann, OFM. Em tempos de chuva intensa, os rios da Amazônia transformam a paisagem num mar de água, onde casas, árvores, templos, cais, portos, ruas e espaços ribeirinhos são encobertos. Como o povo de lá convive bem com o fenômeno das cheias e da vazante, não havia aquela neura sulista de ver em tudo a tragédia. Percebi aquela calma paciente de esperar o rio, o tempo, a lua fazer a sua parte; contudo, não há re-signação nem acomodação. O rio ensinou àquele povo a ter calma e resistência. Em Óbidos, as águas encobriram as ruas beira rio e os trapiches transformaram-se em passarela segura para se chegar. A cidade estava em festa. Faixas de boas vindas ao novo bispo e muita gratidão a Dom Martinho Lammers, agora bispo emérito.

O povo e o bispo têm uma história comum por ali. Quando o bispo é popular, o seu nome está nas ruas e no carinho amazônide; ele faz parte da alma daquela gente. É muito bom quando uma posse vira um acontecimento.Nas lanchas, nos barcos, nas ruas e nas beiras, o bispo era assunto, aliás, os dois: Dom Bernardo e Dom Martinho. Dom Bernardo tem um sorriso natural feito vitória-régia, permanentemente aberta. Dom Martinho tem um humor e uma simplicidade sedutora, feito boto-tucuxi.

O povo era só uma inundação de contentamento. A cidade nem parecia preocupada com a enchente; ela estava toda cheia de mística e motivação. O povo estava faceiro de contentamento. As faixas eram originais e fortemente acolhedoras. Tinha uma que dizia: “ Bem-vindo, Dom Bernardo, Núncio de Deus!”. O jeito caboclo tem lá os seus modos de sublimar a nunciatura. As embarcações trouxeram muitos bispos, muitos sacerdotes, religiosas, religiosos, missionários leigos, os frades e os focolarinos, povo das cidades ribeirinhas, Ordem Franciscana Secular, comunidades, gente da Prelazia toda.

Havia imprensa, fotógrafos e um rio de máquinas digitais. Da Alemanha vieram os irmãos e cunhadas de Dom Bernardo. O Pároco de sua cidade natal, na Alemanha, veio também. Misturou-se tudo como uma gostosa calderada de tucunaré, pirarucu, surubim com muito xibé. Tanta gente que navegou do Gamá ao Tocantins, do Tocantins ao Amazonas.A missa de posse foi no sábado, dia 23, às 18 horas. A praça estava linda, fervorosa, colorida. Missa ao ar livre tendo o Rio Amazonas como fundo. Duas coisas sagradas para o povo de Óbidos: na frente o seu rio e atrás a catedral de Sant’ Ana.

Quando o comentário inicial dava o sentido celebrativo, a música de entrada soava nos primeiros acor-des e o imenso cortejo de bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, acólitos e ministros saía da Igreja rumo ao palco-altar, montado no canto da praça, a chuva veio com dimensões amazônicas. Ela nos banhou a todos. Chuva torrencial. Quem precisou abrigou-se na ca-tedral, mas a maioria não arredou pé. Cada guarda-chuva abrigava quatro pessoas. A maioria ficou sob aquele aguaceiro. Não diminuiu em nada a alegria, o ânimo, a fé, a paixão, a garra daquela gente. Quando há amor entrelaçado, o tempo é sempre bom. Foram duas horas e meia de celebração.

As preces, as falas, as homenagens, os símbolos , as oferendas, a liturgia preparada com competência e unção. A chuva molhando tudo e a todos, mas ninguém saía do lugar numa só comunhão de corpo e alma. Quanto mais chovia mais o povo rezava. Cada vez que o nome de Dom Bernardo era pronunciado, choviam palmas. Cada vez que Dom Martinho era citado, jorravam manifestação de apreço e gratidão. Dizem que o Bispo Ordenante de Dom Bernardo, na Alemanha, disse: “Você trabalhou a vida toda pelos pobres, agora vai viver com eles!” Sei que Dom Bernardo sentiu em todo o seu ser a comunhão dos simples e esta plena certeza.Tivemos recepções, almoço, jantar, música e dança.

Falou o prefeito, o representante da governadora, e tantos que ali traziam a unidade para com o Bispo. Porém, o que falou muito foi a alegria nos olhos do povo. Povo que tem fé firme igual tronco de castanheira. Povo que precisa da Igreja assim como precisa do peixe, da tapioca e do açaí. O Bispo está no coração das pessoas porque a Igreja da Amazônia nunca deixou de correr no sangue e perder sangue, se preciso for, por aquela gente. Foi uma festa missionária com certeza! Profusão de línguas e etnias entre os que vieram de outras pátrias, como missionários, para servir a Prelazia.

O clero da Prelazia estava todo lá numa comunhão real com seu Bispo. Estive lá e vi. Pude contemplar o elo de um povo que ama muito a sua igreja local. Um povo que não esconde sua paixão, sua declaração coletiva de amor. Na Amazônia tudo é imenso. É como diz uma toada do boi-bumbá: “Sou apaixonado, sou amor, sou alegria (...) Meu sangue é vida, suor e fibra, meu canto é forte, sou vibração, explode os sonhos de emoção (...) preparei minha bandeira pra içar no ar. Afinei a minha voz e o som do meu tambor (...) E não há nada que supere a força do meu som. Nem coração que agüente a pressão do calor. É garra, é amor, é paixão!”

Dom Bernardo tomou posse na Prelazia e o povo tomou posse no coração do Bispo. Agora é pastorear aquele povo de Deus, povo da floresta. Agora é lutar para que nunca termine a sustentabilidade da mata, seus recursos naturais e sua sabedoria. É preciso viver sem destruir! A Amazônia é única! Gente, entes, danças, crenças, ritos, lendas e verdade. Os filhos e filhas das águas. As mesmas águas que jorraram sobre a posse como um grande batismo. É no meio disto tudo que Dom Bernardo vai fazer valer o seu lema: “A todos Vida Plena!”

Que a grande fé deste povo o abençoe, que Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da Amazônia seja sua intercessora,que São Francisco o acompanhe sempre, que a cosmogonia amazônide o guarde, que jacarés, peixes, jacuarus, lagartos e serpentes, gaviões, tribos, aldeias, tiriós e pajés, comunidades ribeirinhas, águas sucurijus, tuxauas, canoas, remos, redes, urupês, castanhais, borboletas, pescadores, capelas e rezadores, Curupira, a Mãe Terra, as flautas, a festa ,o Círio, o pato ao tucupi, a farinha e os frutos o protejam!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

FRANCISCANAS PALAVRAS – VII


49. Hoje, com a nossa preocupação econômica, nós pegaríamos Francisco e o reconduziríamos à casa de Pedro Bernardone seu pai.

50. Francisco é o Bem Absoluto, o Sumo Bem, Todo o Bem no qual ele está mergulhado. Temos que deixar vibrar em nós este toque de Francisco.

51. Em Francisco, a Admiração é tanta que ele não é capaz de proclamar o sofrimento. Ele está tão dentro da dor que consegue cantá-la.

52. Francisco não criticou o errado; ele viveu o certo.

53. O Cântico das Criaturas é a identidade cósmica de Francisco de Assis, o fervor de sua alma em relação à todas as coisas.

54. Pobreza Franciscana é encontrar a verdade de nós mesmos.

55. O discurso de Francisco é universal porque sabe falar concretamente da Úmbria, o seu lugar.

56. O finito de Francisco evocou o Infinito.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

FRANCISCANAS PALAVRAS - VI


41. Simples e essencial, este é o Pobre de Francisco.

42. Francisco é: um fervor da vida, uma comunhão universal, uma intensa fraternidade.

43. Francisco nos revela que quem está mais perto de Deus é muito mais próximo da humanidade.

44. Com o jeito de Francisco faça de seu coração um “sine proprium”, então você encontra a felicidade. A felicidade não é você conquistar, mas você repartir.

45. Francisco é a Poesia do humano. É o humano no movimento do caminho percebendo o ritmo e o verso do próprio passo.

46. Para Francisco, ser pobre não é estar sempre necessitado, mas estar sempre num movimento de busca.

47. Alegrar-se com o não poder e entristecer-se com o excesso de poder é a Minoridade.

48. Francisco foi um extraordinário discurso e prática de Libertação.