terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Trindade, Francisco e a Nova Criação - Final


5. Trindade, Francisco e a Nova Criação

A ecologia constitui um jogo complexo e completo de relações. Tudo inclui, nada negligencia, tudo valoriza, tudo concatena; essa é a compreensão da Nova Criação! Um modo de estar no mundo ético ou religioso, isto é, parte de que tudo o que existe e merece existir. Todos somos criaturas, temos um laço que nos une, a fraternidade cósmica. Esta visão é o avanço ecológico da compreensão da vida como Nova Criação.A criação visa o equilíbrio entre a vida e a morte. A criação se rege pelo princípio da exuberância da generosidade. Há sempre um equilíbrio entre a vida e a morte e a partir daí buscar o equilíbrio entre todas as coisas.A Nova Criação é uma ecologia mística.Dá uma visão de que todo o universo pertence ao Reino da Trindade. Essa visão de São Francisco, ele sente o mundo confraternizando com o Espírito. Nós temos clareza da encarnação do Espírito, no entanto temos dificuldade de perceber a habitação do Espírito no mundo em todas as coisas. O Espírito arma a sua tenda, então ele habita não só em Maria, mas no mundo, na natureza. “O Espírito dorme na pedra, sonha nas flores, sente nos animais e pensa no ser humano”. Ele é a grande força unificadora de toda a criação. Por isso, nós temos que intensificar esta concepção que nos leva a assumir o mundo não como objeto de nossa dominação, mas como irmão.
O universo constitui um desbordamento dessa diversidade e dessa união. O mundo é assim complexo, diverso, uno, entrelaçado e interconectado, porque é espelho da Trindade! Deus aponta em cada ser, acena em cada relação, irrompe em cada ecossistema, mas principalmente se sacramentaliza na vida de cada pessoa humana, pois nela encontramos a inteligência, a vontade e a sensibilidade como concretização distinta de nossa única e inteira humanidade. Somos uma só vida e comunhão realizadas distintamente, sendo unos e múltiplos em analogia com o mistério do Deus Tri-Uno.Viver a Nova Criação permite-nos o universo com sumo afeto, porque abraçamos o próprio Deus Trindade. Desta experiência nasce uma nova espiritualidade integradora, holística, capaz de unir o céu com a terra. Bem dizia Albert Einstein: “Sustento que o sentimento religioso cósmico é a motivação mais forte e mais nobre da pesquisa científica”. Não só da pesquisa, mas de uma existência aberta, sem medo do corpo e da matéria com seu peso e seu fulgor. O mundo não é apenas ponte para Deus. É o lugar da veneração e a casa do encontro com Deus. Porque isso é verdade, entende-se a afirmação do maior místico do Ocidente Mestre Eckhart: “Se a alma pudesse conhecer a Deus sem o mundo, o mundo jamais teria sido criado”. O mundo e nós dentro dele existimos para propiciar a Deus ter companheiros na sua superabundância e nós podemos ser divinos em nossa criaturabilidade.

Francisco de Assis elaborou toda uma ecologia interior, uma ecologia mística, uma ecologia da mente. Nos seus escritos, orações e hinos percebem-se o entusiasmo e o brilho que o universo produzia na sua experiência do mundo e de Deus. No final da vida, compôs o hino ao Irmão Sol, peça do mais alto êxtase cósmico. Compôs o seu hino, o Cântico ao Irmão Sol, quando já estava cego e extremamente doente. Canta o sol e a lua, o vento e a água, elementos que já não podia ver em sua quase cegueira. Mas estavam no seu interior como símbolos e arquétipos de absoluta integração. O hino celebra o matrimônio cósmico do céu e da terra, do ser humano que está junto com todas as coisas, com o Deus Solar que irradia no fundo de seu coração. Bem escreveu o filósofo Paul Ricoeur: “Eu me auto-expresso ao expressar o mundo e exploro minha própria sacralidade, quando procuro decifrar o mundo”. São Francisco é testemunho desta verdade ecológica.
Nunca se viu no Ocidente tanta suavidade e tanta ternura como Forma de Vida e maneira de integração como em Francisco de Assis. Por isso, ele continua como referencia cultural para todos aqueles que buscam uma Nova Criação. Dante Alighieri o chamou “Sol de Assis” que continua a irradiar até os dias atuais, despertando em nós aquelas potencialidades adormecidas que nos fazem mais sensíveis, solidários e compassivos com todos os seres do cosmo.
Precisamos resgatar a convicção de que o paraíso não se perdeu totalmente e a ele podemos retornar para cumprir a vocação divina testemunhada no gênesis: nosso lugar é a Terra, mãe e amiga, feita jardim do Éden para cultivá-la com carinho e guardá-la com o coração na mão. Essa é a verdadeira ecologia franciscana e trinitária.
A compreensão trinitária de Deus ganha uma surpreendente ilustração a partir da ecologia. O discurso ecológico se estrutura ao redor da relação e da interdependência de todos com todos. Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em todos os momentos. Nada no universo existe fora da relação. A nova física deixou claro que não podemos falar de partículas elementares, como átomos, núcleos, hadrions, quarks; estes são momentos de densificação de energia. Na nova visão, o universo é concebido como uma teia de eventos sempre inter-retro-relacionados. Todos os fenômenos naturais e culturais estão interligados, de sorte que nenhum pode ser explicado por si sem os outros. Niels Bohr, um dos formuladores da física quântica, dizia: se arranco uma folha de grama no chão faço estremecer a galáxia mais distante, pois ela está também relacionada com a folha de grama.
Agora temos condições de entender o por quê desta conexão universal. É porque todas as coisas são sacramentos da Trindade e da divina pericórese. Reportemo-nos ainda a Santo Agostinho, o grande pensador da Trindade: “cada uma das pessoas divinas está em cada uma das outras e todas em cada uma e cada uma em todas e todas em todas e todas são somente um”. Seguramente nenhum ecólogo moderno diria com mais pertinência a realidade relacional divina e humana do que Agostinho. A Trindade emerge, pois, como a representação mais adequada do mistério íntimo do universo, de sua estrutura e de sua dinâmica. Nesse sentido, a fé na Trindade ganha uma contemporaneidade insuspeitada. Não representa um enigma matemático ou um resquício do paleocristianismo. Ela é a forma mais moderna de se falar de Deus, como comunhão de pessoas, como jogo eterno de relações de vida e de amor, como Trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. O campo da ecologia é o campo privilegiado para entendermos Deus-Trindade. Nesse campo, temos a experiência de base necessária para entendermos a completa e absoluta relacionalidade em Deus como Trindade de pessoas divinas.
Se tudo é relação em Deus e no universo, então tudo deve ser inclusivo e relacional nas sociedades, nas igrejas e nos contactos humanos. Tudo deve conservar-se como sistema aberto, capaz de receber e de dar, enriquecendo os outros. Tudo tem conta e tem valor, porque está inserido dentro do jogo infinito das relações de inclusão. Com razão, dizia S. Francisco que ninguém deveria aspirar a nada, mas continuar in plano subsistere, quer dizer, permanecer no chão comum, onde todos se sentem irmãos e irmãs, porque filhos e filhas do Pai e Mãe de infinita bondade.Essa visão trinitária reforça aquilo de que mais precisamos atualmente na nova fase da humanidade, a fase planetária e que era tão essencial para S. Francisco, a solidariedade entre os povos com suas diversidades culturais e religiosas, a comunhão amorosa com a mãe Terra e a irmanação com todos os elementos vivos e inertes da natureza.
Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Aquele abraço!


Lembra do bordão do Chacrinha, velho guerreiro da comunicação popular? Lembra do apelo da canção do Gilberto Gil? Bons tempos aqueles onde havia o abraço da cultura misturando tropicália, auditório, exílio, ditadura, resistência e um povo se fazendo caminho e encontro! O abraço instaura um momento muito especial e luminoso na existência. O abraço é abandono e confiança. É uma aproximação de história, vida e coração, um puro acolhecimento. Alô, leitor e leitora da Folhinha! Aquele abraço! E hoje eu lembro uma canção mais recente, do Dante Ozzetti, que diz: “Vem me abraçar, vem! Vem reparar bem. Quem é que abraçou quem. Pois vou lhe abraçar também. Quem quer um pedaço. Um pouco de alguém. Abraçando tem. E ainda mais. Se o abraço for além de um minuto. Aí é fatal. Envolveu. Você tem um alguém total!”Aquele abraço!”

Texto publicado hoje, 29/12/2008 na Folhinha do Sagrado Coração de Jesus

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

É Natal


Minhas Amigas e Meus Amigos,
Paz e Bem!


É Natal. Comércio e lojas se entopem de gente. É Natal nos inúmeros arranjos... Muito Papai Noel pouco Menino Jesus. É Natal do marketing e do consumo. Natal rentável. Porém é Natal na Festa da Alegria. A cidade se enfeita, casas se enfeitam e as pessoas são sensivelmente melhores. É Natal nos grupos, nas empresas, nos encerramentos, nas famílias, nos presentes, nos cartões. É um Natal de relações fraternas, com muito mais gestos humanos e menos gestos celebrativos para lembrar o Sagrado. Deus vem Menino porque quis ser um de nós, veio pequeno, fraco, frágil... para ser percebido e acalentado. Não um Deus onipotente, terrível, armado com exércitos. Veio despojado para não impor medos. Deus quis se dar.

O Natal é a festa de acolher Deus que quis se dar. Saiu de si e veio para o nosso jeito. Uma mulher consentiu e um Sim de Amor engravidou a Vida de Emanuel, Deus com a gente! A partir de então, cada Sim de Amor é um Natal acontecendo. Cada Mãe é a humanidade se permitindo que Deus realize maravilhas. Cada criança é um Menino Jesus, uma manifestação de vida e ternura divina.

É Natal nos abraços, nas palavras escolhidas e nas mensagens. É melhor ser melhor, ser muito bom, pelo menos no final do ano. É melhor não profanar a vida, não podemos atentar contra o espírito do Natal. É melhor desejar vida, alegria, felicidade, amor e paz... Ganhamos um presente e ficamos criançamente felizes. No fundo este é o melhor presente que ganhamos: O Menino nos ensina que viver é estar bem pertinho.
Feliz Natal!
Um Ano Novo para não esquecer, cada dia, nossas promessas de Natal!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

NATAL – Ritual dos olhos


Recebi esta mensagem do meu amigo Fábio Paes. Ela é inspirada num texto de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”. Fábio é sensível, visionário e provocador. Não posso guradar esta mensagem só para minha reflexão! Então divido com vocês!


[Dedicado aos diversos natais de miopia, cegueira e morte]

A história do Natal surge como um grito universal de reverência à vida e, diga-se de passagem, de toda e qualquer vida, do verme ao homem que foi a Lua. Na rotina de nossos dias passamos pelas coisas como se fossem meras aparências daquilo que nomeamos como “coisas úteis” e “inúteis”, “necessário” e “desnecessário”, “sagrado” e “profano”, “bom” e “ruim”. Malditas dicotomias necrófilas!

O que é a vida? Eis o grito e expressão de poetas, músicos, filósofos, pensadores e loucos. Sim, loucos, só pensa e se concentra nestas coisas da vida quem não tem nada o que fazer, pelo menos é isto o que dizem. E foi neste cenário de situação, que um homem, chamado de Francisco de Assis, no auge da Idade Média, percebendo a insensibilidade da humanidade frente ao grande valor da existência, criou o presépio. Pegou um burrinho, galinhas, feno, uma criança recém-nascida, convocou a comunidade, camponeses e camponesas, prostitutas e piegas, associações, líderes locais e encenou a assim chamada “noite de natal”.

Um menino pobre, risonho e simples era reverenciado em meio a todo um cenário nostálgico de sensibilidade, beleza e poesia. Causou estranhamento para todos. Por que aquilo? Porque mesmo sem palavras, as pessoas choravam e se deliciavam de admiração? A delicadeza e fragilidade daquela cena, deixava o peito acelerado, prestes a explodir. O óbvio se transforma em extraordinário quando o ser humano silencia, pára e contempla o que está diante de si. Este é o sentido de festa, armar a consciência de enfeites de admiração. O natal não tem segredos e nem necessita de muitas teorias e estratégias de compreensão e não tem nada de sobrenaturalidade, apenas um natural observado, percebido e constatado. O Natal é a máxima plasticidade da rotina, da existência e do óbvio que se equaciona no extraordinário.

Eis que este homem medieval apontava para esta cena e gritava: “Eis que absurdo fantástico e simples! Estão cegos?! Vejam a profundidade daquilo que excluímos na consciência de nossos sentidos”. Para ele, isto se chamava “Deus”, outros chamam isto de “vida”... enfim, o que importa é o feedback que acontece em meio à multidão de alienações do dia-a-dia. Para escândalo de todos, ele continuava de modo aclamativo e jogralesco: “Vejam o contorno do mistério inegável da vida!!!”, e junto com estas palavras derramava lágrimas de admiração. O que ele via? Por que este excesso de comoção e concentração?

Dias se passam, pessoas nascem e pessoas morrem. Alguns são esmagados pela injustiça e excessos de outros. Pisamos em gramas, pisamos em gentes, anulamos egos, matamos de fome, de cultura, de beleza, de reconhecimento e de comida milhares de meninos e meninas, àrvores e rios ... E qual o valor que damos a este ciclo?

Tudo é um mistério belo e precioso, digno de reverência. O jogo entre o banal e o excepcional se mistura e cria a receita de um ritual. Somos feitos de rituais para não deixarmos de ver, nada mais! Por isto, criamos o Natal e outros rituais. Somos seres de memória utilitarista, e esquecemos com facilidade a fatalidade e exuberância da existência. A vida se faz de maneira tão singela e silenciosa que necessita do microscópio da atenção, do bisturi do cuidado e do telescópio da contemplação. Ninguém ainda descobriu a fórmula da vida, e mesmo que descubram existe um início, meio e fim surpreendente e uma aparência para além do que imaginamos.

A vida nos escapa e nos surpreende a cada esquina dos dias. O Natal é o momento que temos de parir a eterna novidade da vida. Nossos olhos se tornam em úteros e nossas mãos em aconchegos do nascido, que muitas vezes abortamos pela insensibilidade. Assim escreve Saramago, em seu livro, “Ensaio sobre a Cegueira”:

“Se podes olhar vê, se podes ver repara!”

Natal é a festa dos olhos diante da realidade que está para além dos cenários dos shoppings, avenidas e dos enfeites de nossas portas, mas sim, a realidade esquecida e periférica de nossos dias. Nada mais e nem menos, nem tão longe e nem tão perto, depende de como se vê.

Fábio José Garcia Paes, míope, mas de óculos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 14


4. Um mistério de comunhão: a pericórese
Na comunidade dos Atos, os cristãos se amavam tanto que formavam um só coração e uma só alma (At 4,32). Se lá o amor constituía tão forte comunidade, como não deve ser com a Trindade! Santo Agostinho, comentando tal fato, escreveu: “O amor em Deus é tanto que impede a desigualdade e cria a igualdade inteira. Se na terra e nos homens pode haver tanto amor a ponto de muitas almas fazerem-se uma só, como não existiria também tal amor entre o Pai e o Filho e o Espírito Santo já que são sempre inseparáveis e, assim, serem um só Deus? Lá, nas muitas almas, fizeram-se uma só por uma inefável e suprema conjunção: aqui, igualmente e pela mesma razão, as pessoas divinas se fizeram não três deuses, mas um único Deus”. Ou como diz Alexandre de Hales, um dos Mestres medievais da Escola Franciscana: “À pergunta donde provém a pluralidade de pessoas em Deus, eu penso se deva responder que ela deriva da perfeição, do poder, da bondade e da capacidade. Querendo, todavia, precisar o assunto, conforme nosso modo de compreender, deve-se dizer que a raiz da pluralidade de pessoa em Deus encontra-se, acima de tudo, em sua bondade. De fato, o esplendor e a perfeição do bem se manifestam no ato de se comunicar. Mas cada comunicação sempre se dirige de um sujeito a outro sujeito. Disto segue que onde há comunhão há sempre dois ou mais sujeitos e, por conseqüência, multiplicação e número. A Suma Bondade é, pois, de certo modo, a causa principal de tal pluralidade de pessoas em Deus”.
O que constitui a união entre as divinas pessoas é a ininterrupta e infinita interpretação do Pai, do Filho e do Espírito Santo num jogo sem fim de amor e de recíproca entrega.
Nós preferimos essa última linha de pensamento, pois é mais adequada para expressar a singularidade da fé cristã em Deus, sempre comunhão de pessoas divinas, porque recolhe a experiência trinitária de S. Francisco que sempre partia da Trindade e porque responde às demandas de nossa cultura individualista e às exigências de justiça dos pobres que sonham com inclusão, participação e comunhão.
Essa comunhão que produz união é específica das pessoas e dos seres espirituais. Somente pessoas, diferentes uma das outras, podem estabelecer relações de intimidade e de amor e podem criar comunhão entre elas. Se estas pessoas são eternas e infinitas, sua comunhão é também infinita e eterna. Essa compreensão processual e pessoal impede que os três sejam considerados cada um por si Deus e com isso se caia no triteísmo (concepção substancialista e não relacional). Os divinos três são únicos e irredutíveis, mas desde sempre e para sempre inter-relacionados. São sempre concomitantes de sorte que, ao famoso ioque, deve-se acrescentar o Spirituque e o Patreque. Em outras palavras: o Pai se revela através do Filho no Espírito. O Filho revela o Pai na força do Espírito. O Espírito é o Sopro do Pai voltado para o Filho. Como se depreende as relações são sempre ternárias: onde está uma pessoa estão sempre as outras.

Ampliando:
A vida da Trindade e das primeiras comunidades são caracterizadas pela união entre as pessoas num jogo sem fim de amor e de recíproca entrega. Hoje, percebemos diferentes máscaras em nosso comunicar, revelar e se entregar. Por que isso ocorre?
Imagem: Trindade no Altar-mor do Santuário Santo Antônio do Valongo - Santos
Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff - continua amanhã

Oração do Pastor Joe Wright


Quando pediram para o ministro Joe Wright abrir a nova sessão do Senado de Kansas, todos estavam esperando o tradicional discurso, mas isso foi o que eles ouviram:

Pai celeste, nós estamos diante de Ti hoje para pedir Seu perdão e para buscar Sua direção e liderança. Nós sabemos que Sua palavra diz, "Cuidado comaqueles que chamam o mal de bem", mas isto é exatamente o que temos feito.
Nós perdemos nosso equilíbrio espiritual e revertemos nossos valores. Nós exploramos os pobres e chamamos isso de loteria.
Nós recompensamos preguiça e chamamos isso de bem-estar.
Nós cometemos aborto e chamamos isso de escolha.
Nós matamos os que são a favor do aborto e chamamos de justificável.
Nós negligenciamos a disciplina de nossos filhos e chamamos isso deconstrução de auto-estima.
Nós abusamos do poder e chamamos isso de política.
Nós invejamos as coisas dos outros e chamamos isso de ambição.
Nós poluímos o ar com coisas profanas e pornografia e chamamos isso deliberdade de expressão.
Nós ridicularizamos os valores dos nossos antepassados e chamamos isso de iluminismo.
Sonda-nos, oh, Deus, e conhece os nossos corações hoje; nos limpa de todopecado e nos liberta.
Amém!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação – 13


Talvez uma representação concreta e de cunho popular nos facilite a compreensão de pericórese trinitária. Em fins de julho de 1986, realizou-se o VI Encontro Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base na cidadezinha de Trindade, Goiás. Nos fundos do local do encontro havia em enorme painel onde se lia: “A Santíssima Trindade é a melhor comunidade”. Representava-se a SS. Trindade da seguinte forma: apareciam as duas mãos do Pai, das quais saía em forma de pomba o Espírito Santo que, por sua vez, repousava sobre a cabeça do Filho, Jesus Cristo. Este, erguendo os braços, tocava as mãos do Pai. Agarrados aos seus ombros, à esquerda e à direita, havia representantes do povo e dos movimentos populares como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e outros. Com isso se queria significar: existe a comunhão humana feita de participação e de comunhão de todos entre si e com a Trindade. Os divinos três são distintos e irredutíveis. Um não é o outro. Mas ninguém se afirma em exclusão do outro. Cada pessoa divina se afirma, afirmando a outra e se entregando totalmente a ela. As pessoas são distintas para poderem se entregar umas às outras e estarem em comunhão.
Ampliando:
1) Como aplicar criativamente a reflexão trinitária a estas afirmativas?
a) “A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”.
b) “A SS. Trindade e, pois, um mistério de inclusão que impede de entendermos uma pessoa sem as outras”.

Imagem: Santuário de Trindade, em Goiás

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff
Amanhã, continua com o subtítulo “4. Um mistério de comunhão: a pericórese”

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 12


Continuação do subtítulo Caminhos da reflexão teológica
Mas como se há de entender a comunhão das pessoas divinas? Essa tendência se obriga a construir uma categoria que funcione como chave da compreensão radicalmente trinitária de Deus que, por um lado, supera o simples monoteísmo da tradição abraâmica (judaísmo e muçulmanismo) e, por outro, evita o politeísmo na forma de triteísmo (Pai, Filho e Espírito Santo como três deuses). Essa categoria se chama pericórese, divulgada pelos teólogos da Ortodoxia, especialmente a partir de S. João Damasceno (morreu em 750). Como não existe tradução adequada para esta palavra (os medievais usavam circumincessão e circuminsessão; pericórese quer dizer: circularidade e inclusão de todas as relações e de todos os seres relacionados. Relação de mútua presença e interpenetração entre Deus e o Universo ou entre as Três Pessoas Divinas entre si e com toda criação) a utilizamos assim em português. O sentido é sinalizar a inter-retro-relação que as divinas pessoas guardam entre si. Todas se interpenetram reciprocamente, como bem o formulou em 1441 o Concílio de Florença: “O Pai está todo no Filho, todo no Espírito Santo. O Filho está todo no Pai e todo no Espírito Santo. O Espírito Santo está todo no Pai e todo no Filho. Ninguém precede a outro em eternidade ou o excede em grandeza ou sobrepuja em poder”. A SS. Trindade é, pois, um mistério de inclusão que impede de entendermos uma pessoa sem as outras. Elas surgem eternamente de modo simultâneo. Deus é Trindade desde sempre. Não é primeiro uno e depois se desdobra em trino como dão a impressão as duas tendências referidas acima, a latina (unidade da natureza divina) e a grega (unidade da pessoa do Pai).
Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com este subtítulo “Caminhos da reflexão teológica”

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 11


3. Continuação do subtítulo "Caminhos da reflexão teológica"
Cristãos vindos da cultura médio-oriental grega denominada pela concepção monárquica absoluta e, em conseqüência, por um estrito monoteísmo a ponto de terem dificuldade de admitir Jesus como Deus encarnado e Filho de Deus, sentiam a urgência de enfatizar a trindade das Pessoas e, a partir, daí compreender a unidade divina. Também eles partiam do credo que reza: “creio em Deus Pai todo-poderoso”. Sublinhavam mais a idéia de Pai que a de Deus. E diziam o Pai é cheio de vida, de inteligência e de amor. Ao expressar-se a si mesmo profere a Palavra reveladora de sua natureza paterna. É o Filho do Pai. Ao proferir a Palavra, o Pai emite, simultaneamente, o sopro que carrega esta Palavra. É o Espírito Santo, espirado pelo Pai junto com o Filho. O Pai, portanto, comunica toda sua natureza e substância de forma diferente (senão teria dois filhos), de tal sorte que Filho e Espírito Santo são consubstanciais ao Pai e, por isso, são Deus. Num ambiente de ausência de comunhão onde campeiam as desigualdades e o individualismo desenfreado, os cristãos são levados, naturalmente, a sublinhar as três pessoas divinas em comunhão e iguais em eternidade e em infinitude. As relações entre elas é tão absoluta e completa, a comunhão entre as três divinas pessoas é tão suprema que formam um único Deus cheio de vida, de amor e extravasão de si.


Texto de Frei Vitório Mazzuco, ofm e Leonardo Boff

Imagem de Andrei Rublev

Amanhã, continuação deste subtítulo "Caminhos da reflexão teológica"

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação -10


3. Caminhos da reflexão teológica

Este dados seminais foram sistematizados pela reflexão cristã durante os primeiros séculos. Como entender minimamente haver três pessoas divinas sem com isso triplicar Deus? Como conciliar a trindade de pessoas com a unicidade de um único Deus? Como em todas as coisas, também aqui, na reflexão trinitária, a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Situações culturais e sociais condicionam as formas de sistematização, todas elas insuficientes face à riqueza contida na realidade da comunhão das divinas pessoas.Cristãos vindos do paganismo, principalmente os romanos, confrontavam-se com a necessidade de superar o politeísmo reinante. Urgia enfatizar a fé num único Deus. Neste contexto pregar, sem maiores explicações, sempre difíceis, a fé na SS. Trindade era dar a impressão de continuar no mesmo politeísmo, apenas reduzido a três deuses. Para manter a concepção trinitária de Deus e obviar o politeísmo, sistematizavam assim sua fé em três divinas pessoas: importa partir da unidade; o credo nos orienta a isso, mandando-nos professar: “creio em Deus, Pai todo-poderoso”. Essa unidade é a natureza divina única. Essa natureza, entretanto, é viva, dinâmica e espiritual. Quando se mostra como origem de tudo, eterna, sem princípio e sem fim, se chama Deus-Pai. Quando se volta sobre si mesmo, se autoconhece e projeta uma imagem de si mesma, se chama Deus-Filho. Quando Deus-Pai e Deus-Filho se voltam um para o outro, se conhecem e se amam, emerge também uma imagem de união e comunhão que é o Deus-Espírito Santo. Temos, pois, três Pessoas que realizam o único Deus vivo, dinâmico, espiritual e eterno.


Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff
Amanhã, continuação do subtítulo “Caminhos da reflexão teológica

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 9


Continuação do subtítulo “Como se deu a revelação da SS. Trindade” – 9ª parte

Por fim, em Jesus se dá também a revelação do Espírito Santo. Ela ocorre na própria vida e na prática de Jesus. Ele é mais que um portador privilegiado do Espírito. O Espírito habita Jesus de forma permanente como aquela força que o leva a falar com autoridade (exousía) e a operar milagres. Essa força (dynamis) surpreende a todos porque está em Jesus, sai dele (Mc 5,30).O texto clássico da revelação da Santíssima Trindade por Jesus é sua palavra de despedida em S. Mateus: “Ide, pois, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (28,19). Por mais claro que seja, opinam os estudiosos que esta fórmula é tardia, pois recolhe a experiência batismal da comunidade primitiva, no tempo em que foi escrito o evangelho por S. Mateus, por volta do ano 85 de nossa era. Ele havia meditado muito sobre a vida e as palavras de Jesus. Disso compreendeu que Jesus nos havia, de fato, revelado quem é Deus, quer dizer, a Santíssima Trindade, e que em nome deste Deus-Trindade deveriam ser batizados os que nele crêem. Jesus está na origem desta fórmula eclesial.
Ampliando:
1) Constatamos que os efeitos pós-modernidade invadiram as nossas fraternidades, dificultando a vivência comunitária (Trinitária)
2) Você já fez uma experiência de comunhão em sua vida pessoal e de fraternidade? Em que momento?

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff
Amanhã, continuação com o subtítulo “Caminhos da reflexão teológica”

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Mestre Leonardo faz 70 anos!

Fiz por seis anos os estudos de Teologia com ele. Aprendi a admirá-lo como pessoa simples e sábia, coração franciscano, apaixonado pela vida, pelo povo, pelo universo e seus cuidados. Ele ensinou-me que ter fé é humanizar a vida, que não basta estudar teologia, mas é preciso ser teólogo. Ele continua presente com seu ensinamento profético, e em nenhum momento passa indiferente diante das realidades da fome, do empobrecimento, da exploração, da exclusão, os crimes ambientais. Sua presença, seus livros e palestras são sempre um grito de alerta, despertadores de consciência. Sua palavra e reflexão suscita debates, rejeições, acolhida, críticas e entusiasmo, porém nos ajuda a olhar a realidade com o pé no chão.
Ele fez da teologia um acontecimento e um fenômeno público, fala da fé mas também fala sobre a realidade social, a justiça, paz e integridade da criação. Uma teologia que não quer compactuar da iniqüidade. Uma teologia que nos ensinou a olhar para o alto e encontrarmos Deus; olhar para o lado e redescobrir a relações fraternas; olhar para baixo e perceber os ofendidos da história. Na sua matriz franciscana mostrou que a teologia deve mudar e transformar a história com os meios do Evangelho. O Mestre Leonardo representa um bom momento de uma Igreja e eclesiologia envolvida com o processo histórico de um povo e de um continente. Mostrou para nós uma verdadeira teologia, que tem atrás de si a Humanidade e não apenas bibliotecas e academias. Uma teologia que mexeu com a nossa fé e com os nossos compromissos genuinamente cristãos. Mestre Leonardo fala sempre sobre realidades extremamente conflitivas, por isto é amado e contestado ao mesmo tempo; contudo revela para nós que fé verdadeira tem que passar pelo filtro da solidariedade, pela denúncia da exploração da grande massa dos injustiçados e põe o dedo na acumulação escandalosa da riqueza em poucas mãos. Por estar apaixonado pelo cerne do Evangelho parte das angústias e aspirações dos pobres e pede a conversão das estruturas (o que aliás ocupou um lugar privilegiado na pregação de Jesus).
Mestre Leonardo continua viajando pelo mundo falando pelos que não podem falar ou são silenciados, consciência das consciências e convite às práticas libertadoras, diz serenamente e convictamente que é preciso conhecer, avaliar, analisar, saber, ir ver para transformar! São 70 anos vividos com intensidade e plenitude. O corpo pode ter lá seus limites, mas a força do olhar e das palavras continuam nos rejuvenescendo! Parabéns!
Seu ex-aluno mas sempre discípulo.

Amanhã continua o texto sobre a SS Trindade.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

3. Como se deu a revelação da SS. Trindade - 8ª parte

Em primeiro lugar Jesus revela a pessoa do Pai. Sempre que se refere a Deus, denomina-o de Abba, expressão tirada da linguagem infantil. E esse Pai é cheio de bondade e misericórdia, pois ama a todos, até “os ingratos e maus” (Lc 6,35).Quem designa a Deus de Pai é porque se sente seu filho de verdade (cf. Mt 11,25-27; Mc 12,1-9; 13,32). Um dos títulos reveladores da consciência de Jesus é exatamente esse de filho em sentido absoluto. O Filho possui mesma natureza do Pai. Assim, ele pôde dizer: “eu e o Pai somos uma mesma coisa” (Jo 10,30). Os judeus logo captaram essa identificação acusando Jesus: “ele se faz igual a Deus”(Jo 5,18). Pedro, ao invés, vê aí a grande revelação e a proclama em seu ato de fé: “tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Não sem razão o céu mesmo o testifica: “esse é o meu Filho amado em quem ponho todo o meu carinho” (Mt 3,17; 17,5).

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com a parte final deste subtítulo “2. Como se deu a revelação da SS. Trindade”

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

3. Como se deu a revelação da SS. Trindade - 7ª parte

Antes de mais nada, como se revelou a SS. Trindade? Há dois caminhos a serem considerados: o caminho da história e o caminho da palavra. O caminho da história é o mais amplo e geral. Deus-Trindade vai se entregando a si mesmo na medida em que a história da criação se desenvolve e avança; surgem ordens cada vez mais diversas e organizadas como expressões do único processo evolucionário. No nível vivo e humano, sempre que surgem formas cooperativas e sinergéticas, laços de solidariedade e de comunhão, aí está o Deus-Trindade em ação. Essa revelação está ainda em curso, porque a criação em evolução não se concluiu.O outro caminho é o da palavra: na consciência da humanidade foi surgindo reflexamente a percepção de que Deus é uma realidade complexa, que é vida e amor. Tais realidades expressam o caráter comunional de Deus. Essa percepção encontrou uma culminância na vida, história e destino de Jesus de Nazaré. Com razão, os cristãos consideram Jesus como o grande revelador da essência íntima de Deus, da SS. Trindade. Não tanto porque tivesse encontrado formulações trinitárias, mas porque em sua prática e na forma como se comunicava aparecia aquilo que chamamos como a revelação do Deus Trindade.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com o subtítulo “2. Como se deu a revelação da SS. Trindade” – 2ª parte

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

1. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 6


Francisco que criou, inspirado na Trindade, as três Ordens, que restaurou três igrejas em Assis, que não se cansava de inserir a invocação intratrinitária “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo” em seus escritos e orações, ajude-nos a reencontrar este sopro trinitário de vida que transforma todos os relacionamentos e nos dá uma plena comunhão de vida. “Não é Trindade puro mistério da fé, que se aceita e se venera, mas o Grande Mistério da Vida Divina, com seu dinamismo salvífico que junta céu e terra, eternidade e tempo, no diálogo de Amor”(Pilonetto, A. “Francisco de Assis 750 anos depois”, Cefepal – 16, 1978, 54). O Santo, um apaixonado venerador da Trindade, um “cultor Trinitatis”, como comunhão fraterna.Dizer que Deus é comunhão de pessoas significa admitir que existe diversidade em Deus. E que a diversidade se ordena à comunhão e à participação. As Pessoas são diversas para poderem estar juntas, uma se comunicando com a outra e formando entre si uma única realidade aberta e infinita. A própria estrutura do universo e de cada coisa, assim nos dizem cosmólogos contemporâneos, se realiza dentro de um jogo de relações e de ininterruptas inclusões; para um cristão essa verificação não surpreende, pois ela é reflexo da realidade comunional do Deus-Trindade. Vejamos, rapidamente, como a reflexão atual coloca a questão da Trindade.
Ampliando:
1. Faça a experiência da comunhão com a Trindade à luz do texto “A Carta aos Fiéis – Segunda recensão, 1 a 15, expressando-a de uma maneira criativa.
2. Retire do texto frases que mais falem a você sobre a Trindade. Partilhe com o grupo.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com o subtítulo “2. Como se deu a revelação da SS. Trindade” . Imagem "Francisco", de Murilo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

1. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 5


A Palavra Santa é palavra que brota da Trindade: “fiz o propósito de comunicar-vos por meio das presentes letras e de mensageiros as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Palavra do Pai, bem como as palavras do Espírito Santo, que são “espírito e vida” (2Carta aos Fiéis, 3).A Trindade brota como a respiração da sua alma e da sua fé: “Tu és Trino e Uno, Senhor Deus, todo o Bem, Tu és bom, Tu és o Bem, todo o Bem, o soberano Bem, Senhor Deus, vivo e verdadeiro”(BLe 3).
Em Francisco a Trindade é uma verdadeira liturgia: “O Deus trinitário constitui verdadeiramente, na opinião de Francisco, a plenitude da felicidade do homem. Toda a vida humana culmina simbolicamente nessa maravilhosa oração que encerra o último capítulo da Regra Não-Bulada (Rnb 23) e constitui como uma liturgia viva à Glória do Deus Trino. Faz lembrar os imensos cortejos luminosos das igrejas orientais, em que toda a humanidade já tivesse sido transfigurada pela incandescência da Trindade Viva (Rnb 23,6-7). A sua visão de fé transforma-se num canto lírico. A errupção do Amor faz-lhe precipitar e repetir as palavras, acumulando-as e fundindo-as nesse vulcão ardente do Deus Vivo (Rnb 23,11). A oração de Francisco transforma-se, como na tradição oriental, em liturgia celeste. O seu coração torna-se o verdadeiro santuário da Santíssima Trindade onde ele celebra o Deus Vivo. A habitação da Trindade no coração do humano constitui para ele, verdadeiramente, o fim de toda oração, de toda missão, de toda a vida e de toda a vida de Penitência”( Michel Hubaut, OFM, A espiritualidade de Francisco de Assis, Editorial Franciscana, Braga, 1993, 77-78).

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Imagem: "Francisco em Oração", de Caravaggio. Este tema continua amanhã na parte 5