sexta-feira, 28 de novembro de 2008

2. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 4

Com uma vida de intensa comunhão com o divino e com tudo o que existe, Francisco desenvolve sua atividade num clima trinitário. Seus biógrafos contam-nos que abre simbolicamente por três vezes o Evangelho para saber a vontade de Deus (TC 29; LM 13,2).
Na pregação e na missão a doxologia é sempre trinitária (LM 9,8, Rnb 16,9; 21,1-2; 23,11). O Deus Trino e Uno é “mais desejável que qualquer outro bem”(Carta à Ordem 50-52).
Na compreensão de Francisco, a Trindade é criadora e faz parte do plano constante de salvar a vida e a história. A Trindade aperfeiçoa e diviniza o humano: “damo-vos graças por causa de vós mesmo, porque por vossa santa vontade e pelo vosso único Filho criastes no Espírito Santo todos os seres espirituais e corporais, nos fizestes à vossa imagem e semelhança e nos colocastes no paraíso” (Rnb 23,1).
Maria é a obra-prima do humano-feminino = “Santa Virgem Maria, não há mulher nascida no mundo semelhante a Vós, filha e serva do altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo (Antífona do Ofício da Paixão). Maria foi “eleita pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou por seu santíssimo e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito!” (SMD 2).

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Este tema continua amanhã na parte 5

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 3

São Francisco nos ajuda a superar aquilo que é a maior desventura da teologia cristã: a amnésia da experiência trinitária. Com isso se deixou de colocar como eixo da vida, da Igreja, da sociedade e da compreensão do mundo aquilo que é conteúdo real, escondido sob expressão Trindade: a comunhão, da relação em todas as direções, a troca e a unidade na diversidade. Em seu lugar predominou e continua predominando uma visão monoteísta, da unidade sem a diversidade, da solidão do uno, da piramidalização das relações e da submissão de todos a um único princípio. Perdeu-se o caráter revolucionário presente na fé em Deus-comunhão-de-pessoas, diferentes na unidade e unidas na diversidade. O revolucionário reside na afirmação de que no princípio está a comunhão dos divinos Três e não a solidão do uno.Se assim é, então em tudo deve prevalecer a comunhão, o respeito pelas diferenças e busca da convergência na diversidade. O que vemos na história e nas Igrejas é a prevalência do princípio do centralismo numa única pessoa e na subordinação das demais. Em outras palavras, subjaz a esse tipo de organização o velho monoteísmo pré-trinitário; ele funciona como legitimação ideológica de todos os autoritarismos como bem o formulou Gengis Kahn ao escrever em seu selo: “um só Deus no céu e um só senhor na terra, seu representante, Gengis Kahn”. Uma efetiva fé no Deus-Trindade = comunhão-de-pessoas impossibilitaria semelhantes formulações.À luz desta constatação ressalta como altamente inspirador o que proclamou João Paulo II, na América Latina, em Puebla, no dia 28 de janeiro de 1979, diante da assembléia geral dos bispos do Celam, ao ensinar que a essência íntima de Deus não é a solidão, mas a comunhão, porque Deus é família, é Pai, Filho e Espírito Santo. Estimo que esta afirmação constitui o ponto alto de todo o magistério do Papa Wojtila. Voltemos à experiência de Francisco.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Este tema continua amanhã na parte IV

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

1. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 2

Com efeito, em seus poucos escritos se nota uma perspectiva trinitária extremamente coerente. Quer dizer, não fica preso ao linguajar do monoteísmo pré-trinitário que fala simplesmente de Deus, comum nos discursos dominantes. Ele sempre qualifica sua fala em termos trinitários, Pai, Filho e Espírito Santo. Isso se nota em seus escritos como Admoestação nº 1, nas Orações de Louvor a serem recitadas em todas as Horas Canônicas, na Regra Não-Bulada e na Regra Bulada. Mais ainda, faz uma opção, certamente inconsciente, mas de grande profundidade teológica: estabelece uma certa ordem em seu discurso ou fala de três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, ou então começa sempre pela Trindade e daí deriva para a unidade (cf. Regra Não Bulada 21, 1; 16; 23, 32.36; 2Carta aos Fiéis 3; 3Carta 1,52; Pai Nosso 17) com expressões como essa “adorai o Senhor Deus todo-poderoso, em Trindade e Unidade”( Regra Não Bulada 21,2); ou “em nome da suprema Trindade e da santa Unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (3Carta aos Fiéis, 1). Com isso, Francisco se coloca no coração da experiência cristã de Deus, experiência de comunhão entre divinas pessoas. Essa experiência nunca teve muita centralidade na teologia escolar e na piedade comum dos fiéis.Se ele vê a criação como a grande casa paterna e materna de Deus e todos os seres como irmãos e irmãs da grande família divina, se percebe laços de fraternura e de consangüinidade entre todos os elementos cósmicos, é porque está sob singular influxo de uma experiência trinitária e comunional de Deus. Ele não precisa falar conscientemente sobre a Trindade. Ele é tão unido à realidade divina que é Trindade que esta se auto-revela no concreto de sua vida e de seu modo de sentir o mundo. Daí a importância da vida de S. Francisco que se transforma num texto teológico a ser lido, interpretado, desdobrado e traduzido para o enriquecimento da vida cristã e humana.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Este tema continua amanhã na parte III

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 1ª parte

São Francisco não foi um teólogo, mas viveu uma vida teologal de grande densidade. Transformou-se no que foi, porque criou espaço dentro de si à realidade divina, para que, através dele, se manifestasse assim como ela é. Se Deus é comunhão de divinas pessoas num infinito jogo de inter-retro-relações de vida e de amor, então essa realidade comunional encontrou em São Francisco, na sua prática e nos seus gestos concretos, um lugar privilegiado de expressão.
São Francisco não foi um clérigo letrado que faz um tratado daquilo que crê, mas um humano enamorado pelo divino que gerou um cristianismo de sedução. Não basta seguir o Senhor, tem que se apaixonar por Ele! Em Francisco irrompe um jeito terno e fraterno de compreender Deus como comunidade, um conglobante mistério que unifica sua vida e o faz perceber a Trindade viva em tudo o que existe: olha o Filho numa relação íntima com o Pai e numa abertura total ao Espírito, uma relação interpessoal, viva, transbordante.

Questionamento para aprofundamento do texto
1) Somente o cristianismo possui a fé no Deus Trino. Por quê?
2) Você já identificou como se revela a expressão da Trindade na obra da criação? Onde? Como?
3) Como se explica o alcance da experiência trinitária de Francisco?

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Amanhã, “A experiência trinitária de S. Francisco”

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pluralidade cultural e religiosa - II


Ter uma espiritualidade sólida, cristã e franciscana dá consistência ao caminho. Hoje, muita gente agarra tudo e se faz um franco atirador... pega tudo o que vem e não leva nada com profundidade. O nosso modo de viver muda na medida em que vamos conquistando uma medida de valores. Ir à boate, barzinho, balada, etc não é ruim; a questão é o modo transparente de como se está ali. Hoje há uma queda na qualidade dos relacionamentos porque pouco se investe na qualidade do humano, e cria-se um vazio existencial, uma superficialidade muito grande. Você não deve deixar de estar num lugar onde pessoas do seu ciclo de relacionamentos estão. Mas você tem que ter um diferencial. Você não precisa ser melhor ou pior que ninguém, você tem que ser é especial, único, alguém que é uma fonte de valores que servem de parâmetros para que os outros melhorem o nível da própria vida. Na qualidade de nossas relações há uma revelação. Amar é perceber alguém. Se você dá o melhor, pessoas mudam. Vejo, sou... logo existo!

 Voltando à questão  do yoga... Não sou um especialista no assunto, mas a minha área de atuação como teólogo é a Teologia Espiritual, e, necessariamente, tenho que saber um pouco. O hinduísmo é uma escola de espiritualidade. O  Yoga não é uma religião; mas pode nos ajudar a dinamizar uma experiência religiosa. O yoga faz parte de métodos que ajudam a educação integral do humano. Assim como a Meditação Cristã (os Beneditinos divulgam muito esta Meditação...) também. Para o yoga, a saúde é um dever moral e para o cristianismo a saúde é um dever religioso. É o domínio das nossas resistências orgânicas e nervosas, o auto-controle emocional, a concentração mental, transformar as nossas forças psico-afetivas em forças mentais e espirituais. Não reprimir, mas sublimar. Levar à iluminação e à contemplação... São métodos milenares que estão também nas buscas dos Mestres do Espírito. Jesus também recolhia-se em momentos e lugares de quietude e concentração.

O yoga entrou no cristianismo com o Pe. Dechannet, um dominicano, que escreveu aos católicos para que fossem um iogue de Cristo, e que usassem estas práticas para viver mais intensamente as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. Tudo é uma questão de discernimento. No cristianismo precisamos também de disciplina para buscar a perfeição espiritual. O próprio cristianismo fala das Três Vias: Purgativa, Iluminativa e  Unitiva... que na Índia já pertenciam  aos exercícios dos  sádhanas. É um encontro cultural e espiritual entre Oriente e Ocidente. Santo Agostinho fala no seu clássico livro Confissões: “Percorri ruas e praças deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrava porque em vão procurava no exterior aquilo que estava dentro de mim”. O poeta-místico hindu Kabir diz: ”Se expulsas Deus fora de ti, o que adoras é a distância”. O yoga já ajudou muito neste encontro de convicções entre o oriente e ocidente. Por caminhos diferentes todos estão na mesma busca.

Quando não se conhece uma experiência diferente, uma religião protege-se contra o diferente refugiando-se em seus dogmas. Hoje, o mundo mudou muito e a Igreja tem que acompanhar também estas mudanças que mexem muito em conceitos teológicos e filosóficos. O grande objeto da mística e da ascese cristã é a perfeição do humano. Isto se dá no natural e no sobrenatural. O natural é cuidar bem e desenvolver os bens que recebeu de Deus: o corpo e suas potencialidades. O humano precisa para isto da medicina, da psicologia, da filosofia, da nutrição, da higiene, da arte. O sobrenatural é cuidar do espírito e acreditar na Graça de Deus, na ação encarnada de Jesus Cristo na história, a sede de transcendência... para isto o humano precisa da espiritualidade e das religiões. Não dá para separar as duas coisas... somos naturais e sobrenaturais ao mesmo tempo. Esta é a união da alma com Deus. A religião ajuda a cuidar do espírito, o yoga ajuda a cuidar da personalidade. O humano sozinho não consegue nada, mas com ajuda de Deus e de exercício concretos na sua existência chega à uma superação.

 Não basta apenas buscar uma vida de piedade se não há controle sobre a vida instintiva, mental e emocional. Hoje, nós temos muita gente que se arvora em estado de santidade, mas  tem problemas emocionais não equilibrados... é preciso encontrar um equilíbrio nisto tudo! Saúde e santidade não se separam. Muitos cristãos têm dificuldade em concentrar-se para meditações, orações mentais e silêncio interior. A nossa liturgia e a nossa oração são por demais barulhentas. A dificuldade vem da incapacidade de se concentrar. É preciso haver um encontro entre a piedade e a mente. É preciso encontrar uma prática eficiente da vida cristã. Não preciso abrir mão de minha fé, mas posso ter a liberdade de buscar outros métodos. O yoga não  dá a fé, mas dá o método para chegar lá... assim como uma Igreja Católica não lhe dá um  cristianismo, é Jesus quem dá....a Igreja é Mediadora de uma Grande Busca.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Descascar abacaxi


Usamos esta expressão para dizer que superamos dificuldades juntos ou sozinhos. O que o abacaxi tem com isso? Porque é cascudo por fora? Tem casca grossa e talo serrilhado com espinhos? Não podemos cometer esta injustiça! Temos que descascar abacaxi, sim!  Por detrás desta aparência é só doçura! Existe sempre um fim saboroso quando superamos desafios! Temos que ver a vida com seu gosto, com sua vibração, com sua alegria, com sua emoção. Tem sempre alguém preocupado com o nosso bem-estar que entrega um pedaço de fruta já descascada para a gente degustar; são os que facilitam a nossa vida. São os que tiram as dificuldades, descomplicam, fazem com tranquilidade os mais belos e escondidos gestos de  amor. Chegam até nós e dizem: eu ofereço os pedaços mais doces do abacaxi!
Este texto foi publicado na Folhinha, no último dia 27 de outubro.