sábado, 31 de maio de 2008

HISTÓRIA DE FOLHINHA


Entre os anos de 1962 e 1964 pude conviver com um bom e santo frade franciscano que fazia a seu modo a Pastoral da Visitação. Ele acreditava que a bênção tinha que ser dada nas famílias; que a Palavra de Deus tinha que adentrar as portas das casas: ser anunciada, ouvida, lida. Ele tinha convicção que Deus estava ali, inteiro em cada pedaço. Incansável, o humilde frade percorria ruas, subia morros, vencia distâncias na região de Campo Limpo Paulista, fazendo o que ele chamava: a pastoral da boa-imprensa. Vendia de porta em porta a Folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Só ajudava o simples frade a carregar os pacotes e distribuir o seu sonho. Um dia resolvi seguir o frade; entrei para a Ordem Franciscana; e hoje escrevo para milhares de pessoas que acreditaram no sonho de Frei Dagoberto Romag.


Imagem do Sagrado Coração na Estampa da Folhinha de 1959.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O BELO E O BOM (V)


Sensibilidade à flor da pele, a Palavra nos ouvidos e a Imagem nos olhos. Perceber e Amar! Escutar e crer! Ver e professar! Daí surgiu uma boa e bela espiritualidade. Para o franciscanismo ver, falar e escrever ‚ igual a pintar. É ser um artista que pinta o mais belo quadro da Paisagem do Humano e da Paisagem do Divino. Assim a Palavra ressoa e refulge, encarna-se, plastifica-se. Francisco não quer possuir as criaturas mas cantar o Valor e a Beleza que elas possuem. É a arte de conhecer e reconhecer os dons e as virtudes da existência. Reconhecer é fazer então uma nova criação. É perceber que o Belo é alegria e o Bom uma sabedoria criadora. É ver todo o criado impregnado de Beleza. Para o franciscanismo o humano é a sinfonia de Deus e por isso deve conquistar a harmonia espelhando-se na harmonia do Natural.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O BELO E O BOM (IV)


O que faz a pessoa bonita é a bondade. A virtuosidade é a beleza maior e a mola propulsora de todos os gestos de amor. O que faz o mundo bonito ‚ a bondade esparramada de todas as coisas: “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Água que é mui útil, humilde, preciosa e casta”. A fecundidade da vida vem desse movimento. A terra boa é o Coração Belo e Bom. Esta ‚ a síntese da Perfeição. O Belo é a expressão perfeita do Bem. O Bom é a plenitude da Caridade. Francisco dá impulso a esta reflexão. Alexandre de Halles descobre a filosofia franciscana da Beleza como difusão do Bem: esta é a estética do simples. O invisível, a essência, a medula, a profundidade toma forma, quantidade, cor e qualidade. Ele sai de si e atinge o humano. O amor toma forma num corpo. Torna-se figura como? Com o vigor da simplicidade, da Transparência e da Palavra. É preciso para isso saber SENTIR, ESCUTAR e VER!
Imagem de Manuel Castro

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O BELO E O BOM (III)


A forma do Belo (ver a natureza de tudo o que é) se torna amada e imitada, cria discipulado e arrasta. Não basta s¢ um entusiasmo inicial, é preciso um dinamismo constante, um impulso de vida exercitado na convivência com o valor das coisas. Quanto mais você entra neste dinamismo mais se torna Vivaz (percebe dentro) e mais a Vida floresce. Então se descobre a arte da Vida. O que é a arte? O que é o artista da Vida? É aquele que está imerso nas estruturas da vida e nelas coloca a sua profundidade. É preciso ter e conhecer a Arte para se ter um Projeto de Vida. O franciscanismo é um modo cultural e espiritual de estar na vida. Não é só aplicação técnica de uma filosofia ou postura de vida, mas é Arte Divina e Arte Humana, é Lógica de Amor, isto é, um grande encontro entre o Humano, o Divino e a Fraternidade. Por isso o Belo não se basta... é preciso ser Bom!

terça-feira, 27 de maio de 2008

O BELO E O BOM (II)


O grande Mestre de Paris, Alexandre de Halles, sintetiza a Beleza criando a reflexão sobre o BELO E O BOM, a estética franciscana. O que é o Belo e o Bom? Ele mesmo, o grande Mestre de Paris, entra no hábito franciscano como símbolo da Encarnação do Belo. Para ele, Francisco e os Primeiros Frades, eram a re-descoberta para o que a vida tem de melhor: convocação de Deus e convocação do amor. É preciso transmitir a Luz desta convocação fazendo transparecer o Brilho das Coisas e das Pessoas! O Belo é transparente e transcendente. O Belo é Uno e Vero. O Belo é sempre percepção, é sempre um chamado, um apelo, um grito para perceber o real, o palpável, o sensível. Não podemos estar no grito do abandono de todas as coisas, é preciso vê-las e percebê-las!

Imagem: "Francisco", de El Greco

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O BELO E O BOM (I)


Quando alguém é unificado por uma intensa experiência afetiva-espiritual torna-se uma Fonte! O Movimento Franciscano tem a sua base em alguém: a experiência concreta-vital de Francisco de Assis, um Homem de Coração Enamorado pela Vida e pelo Deus da Vida! O seu forte amor progressivo e cheio de energia faz com que ele e seus seguidores e seguidoras se tornassem criadores e criativos. A fonte de Arte Franciscana ‚ a paixão! O apaixonado é sensível, antenado, real e contemplativo. Escolhe o natural e transforma o natural numa linguagem. O natural sempre nos atinge e nos refaz. Existe a Beleza do Simples? O que é a beleza do simples? É descobrir e fazer aparecer o modesto na sua força. Uma fragilidade que é potência. A grandiosidade da vida, a grandiosidade do mundo e das pessoas só é dada para quem tem olhos para essa Beleza.
Na imagem, "São Francisco de Assis", de Portinari.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

AS APARIÇÕES MARIANAS


O humano tem toda a liberdade de crer, investigar, apresentar hipóteses, falar com respeito e humildade sobre as aparições; só não pode afastar-se da verdade dos fatos. O humano pode chegar a conhecer a realidade objetiva mediante o processo sensorial-intelectual: nada está no intelecto que não tenha passado por todos os sentidos. Através dos sentidos captamos as coisas e as trazemos para o nosso conhecimento. O vidente diz perceber com os olhos, ouvidos e sentidos a presença sobrenatural da Mãe de Deus. Será que não podem perceber Aquela que subiu de “corpo e alma” para o céu? Que obstáculos existem para uma mãe que quer realmente comunicar-se com seus filhos? Uma multidão corre para o lugar sem se importar com os questionamentos. Há um passo concreto de fé, de oração, de penitência, de total diálogo com o divino, de crer e ver. Não seria este o verdadeiro milagre?
Na imagem, multidão diante da Basílica de Lourdes, na França.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A RESPEITO DAS APARIÇÕES


Além das aparições aceitas de Lourdes e de Fátima, volta e meia o assunto volta a ser notícia: mais uma revelação localizada da Mãe de Deus! As atenções se voltam para o local ou para o vidente; uma mistura de fé e sensacionalismo cercando o fato. Porém temos que ficar atentos ao significado, conteúdo, tempo e lugar onde se dá a aparição. A mãe de Deus não é um dado abstrato e atemporal. Ela sempre indica caminho, doutrina; direciona mensagens e preces que vão se encarnando e suscitam um confronto entre razão e fé. Uma crença sem racionalidade não cresce de modo equilibrado; uma racionalidade sem o dom da fé é estéril; sem esta harmonia tudo pode ser superstição ou fanatismo.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

FALANDO SOBRE HERMENÊUTICA


Hermenêutica é a arte de interpretar. É colocar-se em relação com a vida, com o texto, com as pessoas. Cada vez que um sujeito pensante se põe em relação, de modo vital, com uma realidade fora de si, temos uma hermenêutica. Hermenêutica é interpretar; é construir junto com a mensagem; é um gesto e ato humano de criar, dar significado, encontrar sentido. A hermenêutica, como ciência, nasceu neste século, mas o exercício hermenêutico é tão velho quanto o mundo. Estamos falando disso porque você está vivendo conosco página por página a hermenêutica da Folhinha. Você lê nossas pagelas e introduz tudo no mundo bonito do seu imaginário; você cria junto com a mensagem. Faz uma imensa sintonia com as palavras, vai além do que está escrito aqui.
Imagem da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, editada pela Vozes

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O BELO E O BOM


Tudo o que é belo e bom nos dá um impulso de vida. O belo e o bom são amados e imitados; fazem florescer o espiritual e mostram que vida não é só sobrevivência técnica, material e biológica, mas é arte divina! Belo não basta, é preciso ser bom! O que faz a pessoa bonita é sua bondade. O belo é aquele que se abre para a expressão mais perfeita do bem. O bom é aquele que ama concretamente, difunde o bem e faz a caridade valer. O belo e o bom são a transpiração da afetividade. O que falta na nossa formação é trabalhar bem isto. Às vezes somos rudes, duros, grosseiros demais! É a beleza e a bondade que tornam uma pessoa amável e animar a sua capacidade de trocar bens e dons. Um ato de amor e bondade desarma!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

UM PERSONAGEM CHAMADO JÓ


Você tem lido o livro de Jó. É a criação literária, teológica e polêmica mais poderosa de toda Bíblia. É um livro que se ocupa em falar com Deus e não falar de Deus. O humano ali, na contradição do mal, da doença, do sofrimento; é o Divino bem na sua: ético e quieto, mas pronto para o diálogo. É um livro que faz teologia através de paradoxo. Quando perde a paciência o humano fica com raiva do divino. O ódio teológico é mais perigoso que uma fábrica de armas químicas. A teologia de Jó não está na resposta de Deus, porém no seu silêncio. Ali é mais o humano que fala e Deus escuta. Assim, o humano vai aprendendo que é preciso deixar Deus na liberdade de se dar. Jó percebe isto e deixa que Deus o venha visitar quando quiser. Um doente sofre muito quando quem visita fala demais. Deus vem, visita, não fala nada; apenas sofre junto.
Na imagem, "Jó e seus amigos", de Gustave Doré

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O ORANTE TRABALHADOR


Na língua hebraica a palavra rezar também tem o significado de trabalhar. O orante é um trabalhador, isto é, ele não apenas entoa ou recita a oração, mas ele faz a oração. Você já reparou isto no salmista? O salmista é alguém que aprendeu a contar uma história rezando. O ser humano dos salmos é um humano encarnado, real, atual, nunca envelhece; que vive intensamente o momento individual, coletivo e litúrgico. Ele gosta de narrar a estadia no deserto, a entrada na Terra Prometida, a batalha, a alegria, o pranto e a procissão. O salmista se sente pobre, dependente, carente e fraco. Reza porque precisa. Trabalha tanto a necessidade de rezar que ganha o salário da alegria de experimentar como Deus é grande!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

VOCÊ SABE O QUE É HAGIOGRAFIA?


Hagiografia é a ciência ou estudo da vida dos santos e santas. Vale a pena conhecer uma vida que é modelo referencial do humano: pessoa profundamente humana se diviniza; pessoa que abre um grau de espaço para o divino em sua vida torna-se profundamente humana. Uma vida santa ajuda muito a sua busca e procura de Deus; é um auxílio concreto para a sua espiritualidade. Os primeiros cristãos tinham orgulho em mostrar ao mundo suas pessoas santas; eram seus heróis! Um herói precisa fazer algo de grandioso para ser honrado; e o santo é um herói que se bateu pela fé e pelos fracos. Leia suas vidas! São vidas que iluminam sua prática!
Imagem de Santa Teresa de Jesus ao lado

quarta-feira, 7 de maio de 2008

USAR O TAU É LEMBRAR O SENHOR




Muita gente usa o TAU. Não é um amuleto, mas um sacramental que nos recorda um caminho de salvação que vai sendo feito ao seguir, progressivamente, o Evangelho. Usar o TAU é colocar a vida no dinamismo da conversão: Cada dia devo me abandonar na Graça do Senhor, ser um reconciliado com toda a criatura, saudar a todos com a Paz e o Bem. Usar o TAU é configurar-se com aquele que um dia ilumina as trevas do nosso coração para levar-nos à caridade perfeita. Usar o TAU é transformar a vida pela Simplicidade, pela Luz e pelo Amor. É exigência de missão e serviço aos outros, porque o próprio Senhor se fez servo até a morte e morte de Cruz.

Essas reflexões sobre o Tau foram publicadas em 97 na Folhinha do Sagrado Coração de Jesus

terça-feira, 6 de maio de 2008

A COR DO TAU




O TAU, freqüentemente, é reproduzido em madeira, mas quando é pintado, sempre vem com a cor vermelha. O Mestre Nicolau Verdun, num quadro do século XII, representa o Anjo Exterminador que passa enquanto um israelita marca sobre a porta de sua casa um TAU com o Sangue do Cordeiro Pascal que se derrama num cálice. O Vermelho representa o sangue do Cordeiro que se imola para salvar. Sangue do Salvador, cálice da vida! Em Fontecolombo, Francisco deixou o TAU grafado em vermelho. O TAU pintado na casula de Frei Leão no mural de Greccio também é vermelho. O pergaminho escrito para Frei Leão no Monte Alverne, marca em vermelho o TAU que assina a bênção. O vermelho é símbolo da vida que transcende, porque se imola pelos outros. Caminho de configuração com Jesus Crucificado para nascer na manhã da Ressurreição.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O TAU E A CURA DOS ENFERMOS


No relato de alguns milagres conta-se que Francisco fazia o sinal da cruz sobre a parte enferma dos doentes. Após ter recebido os estigmas no Monte Alverne, Francisco traz em seu corpo as marcas do Senhor Crucificado e Ressuscitado. Marcado pelo Senhor imprime a marca do Senhor que salva em tudo o que faz. Conta-nos um trecho das Fontes Franciscanas que um enfermo padecia de fortes dores; invoca Francisco e o santo lhe aparece e diz que veio para responder ao seu chamado, que traz o remédio para curá-lo. Em seguida, toca-lhe no lugar da dor com um pequeno bastão arrematado com o sinal do TAU, que traz consigo. O enfermo ficou curado e permaneceu em sua pele, no lugar da dor, o sinal do TAU (cf. 3Cel 159). O Senhor identifica-se com o sofrimento de seu povo. Toma a paixão do humano e do mundo sobre si. Afasta a dor e deixa o sinal de Amor.
"Estigmas", pintura de Fra Angelico