quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
Final

Com Francisco aprendemos que ser solidário é a identificação com a Pobreza e com o pobre; que ser solidário é ser irmão e irmã de todos, ver o mundo no coração da experiência de alguém que está experimentando uma grande carência. Isto é que transforma as práticas e o modo de estar no mundo, tornando “o amargo em doçura de corpo e alma” (Test 3).
Francisco não está preso aos projetos do mundo. Ele se recusa a ter um pensamento utilitarista, isto é, ter o melhor uso dos recursos para o melhor funcionamento dos sistemas; um processo que continua industrializando e mercantilizando mentes e corações (cf. o filme “Quanto vale ou é por quilo?” de Sérgio Bianchi). Ele é um pobre, um livre, um diferente, um irmão que mostra que a verdadeira solidariedade é apontar para a desumanidade; é notar a negatividade e as injustiças presentes nos processos sociais e lutar contra isso; questionar as promessas que o sistema faz e não cumpre; deixar as pessoas falarem; educar para a originalidade; cuidar da singularidade da pessoa para que ela seja cada vez mais ela mesma e não apenas vítima; pregar é viver a sensibilidade, a fineza, a cordialidade; ser um instrumento da paz, e paz é garantir a quem precisa o melhor!
Com Francisco, temos a inspiração para transformar, viver e praticar a solidariedade como Serviço!

Este artigo foi publicado na Revista do Sefras de 2006

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
5ª parte


Com o Projeto Franciscano aprendemos que solidariedade é energia de amor e generosidade, que é a busca incansável do bem, do dom de si à fraternidade humana; uma atitude permanente de renúncia e serviço; de gerar recursos para viver e trabalhar em benefício de todos.

Com o Projeto Franciscano aprendemos que Pobreza não é contrária ao sonho de ter nem a angústia de não ter, mas é gerar recursos, trabalhar e dividir com todos. Aprendemos que Obediência é atitude constante de escutar o Amor e dizer “De boa vontade o farei, Senhor!” e, a partir daí, ter paixão na vontade e nos projetos. Aprendemos que a Pureza de Coração é a epífania de um Amor solidário e universal.


Amanhã, a sexta parte deste artigo.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
4ª parte


Francisco ensinou a solidariedade através do Cântico das Criaturas, isto é, a destinação universal de todos os bens, a fraternidade universal e o universalismo fraterno. O Altíssimo Onipotente, o Bom Senhor, o Sumo Bem, é o Deus de nosso coração que nos convoca a um Amor Universal, inaugura a fraternidade de todos os seres, de todas as criaturas, de todas as pessoas. Todo ser criado nos remete à Fecundidade Social do Amor. A verdadeira fraternidade humana se ampara na comunhão de valores e de bens fundamentais para a vida: a terra, a água, o ar, o fogo, a luz, o verde das plantas, a habitação, o mundo limpo e bonito, partilhado e cuidado para oferecer a todos as melhores condições de viver. Ao dividir tudo isso, conquistamos a verdade, a justiça, o amor, a solidariedade, a liberdade, a mais plena comunhão de bens e de dons.

Amanhã, a quinta parte deste artigo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
3ª parte


Porque decidiram viver nas ruas e pelos caminhos de Assis, pelas estradas da Úmbria e do mundo, da portaria do mosteiro de São Damião à todas as portas abertas das necessidades sociais, perceberam os malvistos e malcuidados, os banidos e os que são vítimas de preconceitos de castas e credos. É assim mesmo! Quem decidiu seguir as sendas de Jesus Cristo, consegue ver melhor o faminto, o preso, o nu, o sedento, o pequeno, o sofrido e o paralítico. Não tem como não filtrar tudo pelos olhos do Evangelho e suas práticas.

Na sua origem, o Projeto Franciscano, teologicamente, é centrado na Encarnação, na Paixão e na Eucaristia. A Encarnação é um Deus que vem morar junto, é humano, é raça, é presença, é um atencioso pleno de cuidado. A Paixão mostra que a Cruz não é fim; é fonte! Fonte da capacidade do Amor se entregar até às últimas conseqüências. A Cruz fala em meio a enigmas, entregas e incompreensões, mas sempre fala e manda reconstruir! A Eucaristia lembra, cada dia e em todos os lugares, a partilha, o fortalecer a caminhada, o dar um pedaço, revelando nele a própria natureza, alimenta-se de um Deus que se faz humildade e comida para tocar o humano nas suas entranhas.


Amanhã, a quarta parte deste artigo.

Na imagem São Francisco e a Cruz

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
2ª parte


Fazem a experiência de esmolar; e a esmola não era só o que se recebia como doação ou o que se oferecia prodigamente, mas era, sobretudo, estar no lugar onde estavam as necessidades dos doentes e leprosos, dos pobres e fracos, dos mendigos, dos irmãos e irmãs, da gente excluída e desprezada. Aqui começa a primeira prática solidária: o que eu tenho eu dou, porque é preciso viver não para si mesmo, mas em favor dos que necessitam; e viver era suprir, oferecer, estar junto, dividir, providenciar o necessário (cf. Rnb 9). Cresceram eles e todos que participavam deste modo de ser, pois quem vai ao encontro da necessidade alheia devolve à pessoa a sua beleza e dignidade.

Este texto continua na segunda-feira

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
1ª parte


Quando Francisco de Assis, a partir de 1205/1206 concretizou a Fraternidade Franciscana, agrupou pessoas para viver com eles, radicalmente, os valores do Evangelho. O grupo primitivo de Francisco não passou despercebido porque teve um modo original de se expressar socialmente. Seus companheiros, e pouco depois, Clara de Assis e suas companheiras, vieram de várias categorias sociais; mas o seu propósito tão claro, criou uma única classe humana: a dos que fazem o Amor ser realmente Amado! Escolhem a itinerância e a Contemplação como um modo de vida e isso os ajuda a viver o desprendimento, a mobilidade, o privilégio de não ter privilégios, a liberdade, a igualdade, e uma caridade que garante uma prática do Evangelho e uma visão de mundo muito sensível.

Amanhã, a segunda parte deste artigo.

Imagem do pintor Robert Lentz

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - Conclusão


No modelo de Francisco podemos ver a compreensão franciscana do Homem; não sem certa dificuldade, porque o homem moderno, frio, calculista, cético... tem dificuldades em medir-se com o ardor e paixão, emoção, pobreza, doçura e rudez de um modelo assim. Mas existe o confronto, pois como diz Agostinho Gemelli: “O homem de nosso tempo procura e encontra em Francisco algo de que tem sede”.
Para os que amam o seu lado natural e ecológico, ele é um homem primitivo. Para os que amam a reflexão, ele representa o fervor das palavras contra a aridez dos discursos. Para os de sensibilidade estética, ele é um jeito novo, um pão caseiro. Para a História e a Mística, ele é uma fonte inesgotável, um provocador espiritual e um sempre novo modo de conceber a vida.
Termino citando um teólogo franciscano que nos recorda que: “Diante de Francisco descobrimo-nos imperfeitos e velhos. Ele aparece como o novo e o futuro por todos buscado, embora tenha vivido há 800 anos. Mas este sentimento é sem amargura, pois sua mensagem encerra tanta doçura que o medíocre se sente convidado a ser bom, o bom a ser perfeito, e o perfeito a ser santo. Ninguém fica imune à sua convocação vigorosa e ao mesmo tempo terna”(30).

(30) L. Boff, São Francisco de Assis: Ternura e Vigor, Petrópolis, Vozes, 1981, 181.

Imagem: Crucifixo do Santuário de Arezzo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 26ª parte


Suas atitudes causavam grande impacto num tempo cheio de ódio, lutas e cobiça. Mesmo ali mandava a lei do mais poderoso e competitivo. Neste contexto ele apresenta uma proposta nova de relacionamento mais prático. A cortesia dos nobres estava presente nas canções e idéias, a de Francisco era imediata e desinteressada.

Francisco tinha sonhado repetir as empresas de Carlos Magno e Artur; depois da conversão não renega aqueles que foram os seus ideais de juventude e, com muita sensibilidade, soube colher os aspectos mais nobres da cavalaria para fixar-lhes uma nova ordem, em que o perdão substitui a vingança, o amor substitui o ódio, o espírito de dedicação o orgulho, a sede de paz e de justiça os saques e acúmulos, a humildade substitui a opressão do comando (29).

Em Francisco, a cortesia não é uma etiqueta, uma norma de civilidade social, mas é a expressão insubordinável e inevitável de seu sentimento interior: é o modo como o outro deve ser amado de um modo verdadeiro. É um relacionamento de respeito, retidão e sinceridade.

Na sequência, a conclusão deste artigo

Imagem "São Francisco prega em Assis", de J. Benlliure


(29) P. Anasagasti, La cortesia, prioridad del Pobrecillo, CF, 22 (1988) 36-42

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 25ª parte


Os trovadores iam de castelo em castelo cantando o amor-cortês. Os cavaleiros andavam na sua busca influenciados por este modo de viver. Francisco certamente ouviu demais falar desta virtude bastante presente nas gestas dos paladinos, nos romances do ciclo do Rei Artur, nos contos narrados por sua mãe. A cortesia entra na sua mística: “Mansidão, gentileza, paciência, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassa seus recursos, eram sinais de sua natureza privilegiada que anunciavam já uma efusão mais abundante ainda da graça divina neles”( LM, 11)

Este texto é uma espécie de “semântica da cortesia”, que vai preparando um quadro de objetiva disponibilidade para a santificação. Francisco era cortês por natureza; isto fazia com que estivesse sempre preocupado pelos direitos dos outros, repartindo tranqüilidade e alegria.

Este artigo continua amanhã

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 24ª parte


11. A cortesia como virtude: nobreza de atitudes
Falemos da cortesia... Quem viveu a realidade e a fantasia das legendas cavaleirescas conhece o reino da cortesia. É muito difícil dar uma definição exata da cortesia, pois é todo um vasto mundo de significados.
Diz o poeta: “uso di corte, quando ne lê corti anticamente lê virtudi e li belli costumi su’usavano” (Dante, Convívio, II, X, 8). Este é o ponto de partida para a compreensão: os costumes e usos da corte para se trabalhar a virtude. Isto compreende uma série de valores: lealdade, generosidade, prodigalidade, fineza no trato, atenção devota à pessoa do outro, gênio do gosto, comunidade dos que amam o belo.

Imagem em aquarela: Francisco na sua juventude, de Romeo Cianchetta

Amanhã, a continuação deste artigo

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem -23ª parte


É o hino de quem caminha, de quem é peregrino que passa e vê, extasia-se mas não toma posse. É o cavaleiro bêbado de símbolos e de mitos! É o trovador que sente a limitação de suas palavras, e, na impossibilidade de dizer, convoca todo o cosmos...
É o canto do servo que se reconhece quase um nada diante da Grandeza de seu Senhor, por isso torna-se submisso, humilde, consangüíneo de todo o ser criado...

Imagem de Nelson Porto

Amanhã, continua com o subtítulo "A cortesia como virtude: nobreza de atitudes"

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 22ª parte


10. Francisco e as criaturas

Todos conhecemos o Cântico do Sol de Francisco de Assis, um marco e símbolo da sua relação mística com o cosmos e a reabilitação da matéria. Neste Cântico celebra a fraternidade cósmica da criação, e novamente, com sua aguçada sensibilidade, nos lega mais uma jóia da poesia religiosa popular. Um momento poético de rara inspiração! É um canto que brota da felicidade, da felicidade de amar, de ver, de sofrer, da capacidade de perdoar. Neste Cântico, Francisco mostra-se de um modo muito autêntico, é muito disponível em desvelar o seu ser.
É a expressão direta e imediata de louvor ao Senhor através da mediação da realidade criatural. Nele aparece Francisco que se inebria de seu Senhor, deixa-se iluminar por ele, deixa-se cuidar. Canto de maravilha e encantamento!

Amanhã, a continuação deste subtítulo


quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 21ª parte


Ilustremos isto com um texto de Facchinetti: “Os amigos ideais entre os companheiros de apostolado de Francisco, encontramos naqueles frades devotos que o seguiam, discípulos fiéis e admiradores do Mestre. Recolhiam-se com ele na solidão dos ermos e das florestas, compreendiam-se perfeitamente em espírito, imitivam generosamente seus exemplos, viviam a sua mesma vida de extrema pobreza, com ardor seráfico, com simplicidade profunda, em oração contínua e austera penitência, numa fraternidade recíproca, em perfeita alegria, o seu esforço incessante era imitar e chegar à perfeição segundo os vestígios do Pai Seráfico, e procurando reproduzir, neles mesmos, o mais fielmente possível, as virtudes do seu Grande Guia Espiritual” (28)
Não era apenas um seguir como estar fisicamente junto, mas era repetir em sua vida o modelo e a experiência de seu mestre e senhor. Imitar é método, é aceitar o convite de fazer e refazer junto e exercitar-se naquilo que o Mestre exige...

(28) V. Facchinetti, San Francesco d'Assisi e l 'amicizia cristiano, Quaracchi, 1923, 117.


Imagem mostra o Vitral da Igreja de São Francisco, em Guadalajara, México

Amanhã, a continuação deste artigo com o subtítulo "Francisco e as Criaturas"

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 20ª parte


9. O ser discípulo
O discípulo é aquele que está no movimento de refazer o Mestre, é aquele que, diante do Mestre, está sempre disposto ao aprendizado. Copia não para multiplicar, mas para descobrir a originalidade única do Mestre:“Irmão, prometi fazer tudo o que fizeres, por conseguinte, convém que me conforme em tudo contigo” (Sp 57).
Todo o caminho de Francisco foi um engajamento em causas nobres. Reúne mais do que qualquer outra figura na história espiritual, porque soube expressar interioridade e humildade, uma indômita energia de querer seguir, uma heróica potência de ação, necessária para completar o humano e um desígnio que vai além do humano (27).
O engajamento numa grande causa é que chamamos de discipulado. No coração da experiência do Grande Outro fazer a própria experiência. É o colocar-se aos pés de um mestre e predispor-se a acolher aquilo que é digno de alimentar uma vida.
(27) A. Chiappelli, L’Anima eroica di Frati Francesco e l’Italia, RI (1927) 46.

Este artigo continua amanhã neste subtítulo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 19ª parte


Ser nobre é dar um sentido a tudo o que se faz. É não gastar e desgastar a vida por pouca coisa, é ter uma medida de grandeza. “A grandeza de uma época depende da quantidade de pessoas capazes de sacrifícios qualquer que seja o objeto destes sacrifícios... Dedicação é sua palavra de ordem! Dedicação é não apenas garantia de um soldo seguro. Com que coisa começa a grandeza? Com a empenhada entrega a uma causa... a grandeza é uma ligação entre um determinado espírito e uma determinada vontade” (26)

Ser nobre é ter uma ambição sadia. Não é uma vontade egoísta, porém é uma vontade que visa uma plenitude. Se quer ser, tem que ser o melhor! O entusiasmo aparece como uma força, como um sonho, um impulso. É um fenômeno sonhar, querer, buscar! Isto caracteriza a nobreza de Francisco: este impulso interno para algo que vale a pena viver, algo em que vale a pena investir. É tão convicto de seu sonho, de seu ideal, que não se sente ofendido quando um companheiro de prisão o considera louco. Mesmo nesta situação não perde a sua postura de nobre. Ser nobre é ser transparente, sereno, não agressivo, ser cada vez mais nítido e seguro naquilo que se quer.

(26) Esta é uma “afirmação de Jacob Burckhardt, defendendo a grandeza do Mundo Medieval como a nossa “real existência”. Texto citado por H. Fuhrmann, Guida ao Medioevo, 24.

Na imagem, a transparência e a nitidez da água ao focar um cardume.


Amanhã, a continuação deste artigo