quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o Trabalho do Sefras - Final


Quem aprendeu a cuidar da ferida da lepra aprende também a tirar vermes da estrada e ver luz mais brilhante no sol, na lua, nas estrelas, na criação.

Ontem, Francisco criou a mística encarnada do Pobre, hoje o Sefras continua a mística do coletivo, do respeito à pessoa, da defesa e da promoção dos pobres!

O Sefras é o resgate da mística evangélica e do sentido político da fé cristã!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o trabalho do Sefras - 4ª parte


Francisco abraçou a causa dos pobres porque sabia que viver o Evangelho não é apenas professar uma doutrina, mas fazer valer um projeto de transformação: o serviço por amor, o voluntariado por amor, a capacidade de perdoar, a sensibilidade pelos fracos, a atmosfera de alegria e paz, a generosidade saindo pelos poros... Para Francisco, o Evangelho não era uma lei rigorosa, mas a vontade amorosa de um Deus que queria que o amor fosse amado.
A partir disto tudo, Francisco deu esmolas, pediu esmolas, curou feridas de leprosos, dividiu o prato de comida, fez de ruínas albergues de aconchego; evitou a agressividade, a ostentação, a sedução do poder de quem manda e de quem tem; plantou e colheu, trabalhou com as próprias mãos, aceitou simples, intelectuais e nobres que queriam ajudar e entrar na mesma Forma de Vida; recebeu o sagrado feminino de Clara que o ensinou a ser mãe; andou sempre com o companheirismo fiel de Leão que o ensinou a ser humilde e amigo.

Amanhã, a parte final deste artigo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o Trabalho do Sefras - 3ª parte


O começo de Francisco foi entre os leprosos da época: gente contaminada, excluída, desamada e fora de qualquer privilégio social. No meio deles, Francisco começou a moldar o rosto de uma nova humanidade que abraça, acolhe, mora junto e faz da obra concreta uma fé pessoal, comunitária, social e cósmica, perpassada pela graça de Deus e inserida na realidade histórica.
Francisco foi às práticas bem concretas para que na sua época e em todos os tempos fosse diminuída a iniqüidade, a injustiça, a dor, o sofrimento, a miséria. Para Francisco, tudo era coexistência no Amor; viver lá no meio das situações humanas e desumanas, viver lá onde são urgentes todas as experiências marcantes do cuidado que dá vida e criatividade à fé que um dia aprendemos. Tudo o que passa pelo afeto e pelo coração vira mística! Aí Francisco se transformou num ser livre para amar!
Desenho de Frei Pedro Pinheiro
Amanhã, a continuação deste artigo

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A mística Franciscana e o trabalho do Sefras - 2ª parte

Era uma pessoa de sucesso, mas não realizada. Para ser uma pessoa realizada não quis arriscar a sua vida por pouca coisa, mas optou pela causa das causas: Viver neste mundo no modo de Jesus Cristo! Ser igual a Ele e encarnar os valores do Evangelho para que a sua vida tivesse uma medida necessária. Ao abraçar a causa do Reino de Deus pregado por Jesus Cristo, Francisco encantou-se com a maior prioridade do Reino: os Pobres! Ser pobre não é estar dentro de uma categoria econômica excludente, que diz que você nada possui.Para Francisco, o ser pobre significa a coragem de repartir. O pouco que tenho eu dou! A identidade do pobre é a fraternidade, isto é, todos são meus irmãos e irmãs, todos são por demais importantes, todos são capazes, todos têm direito aos melhores frutos da terra. Assim Francisco aprendeu com o seu Mestre Jesus: ser pobre no meio dos pobres, cuidar incondicionalmente de toda humana criatura.

Na segunda, a terceira parte deste artigo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o trabalho do Sefras - 1ª parte


Mística é um encadeamento de paixão; uma experiência mais interna e mais intensa que nos leva às mais profundas motivações. Mística é transcender a realidade; é colocar enamoramento na vivência de uma causa, de um projeto, de uma vocação, de um ideal. É ser totalmente envolvido por um projeto!Quando falamos de Mística Franciscana, nos reportamos ao modo original como Francisco de Assis viveu: um rebelde com causa! Não satisfeito com a sociedade da época, não satisfeito com a qualidade de vida burguesa de sua família, não satisfeito com a ausência do Evangelho de certas experiências eclesiológicas, não conformado com a sua juventude ambiciosa, guerreira e seduzida pelo status de possuir títulos nobres, castelos e terras, resolveu mudar de lugar, mudar de mentalidade, mudar o rumo de sua vida.

O SEFRAS é a sigla do Serviço Franciscano de Solidariedade, que reúne as obras sociais da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, presente em cinco estados (SP, ES, RJ, PR e SC). No total, são 31 projetos sociais, que atendem desde bebês e mães gestantes vivendo em situação de risco, passando por programas para crianças e adolescentes, adultos em trabalhos profissionalizantes ou vivendo em situação de rua, soropositivos, até projetos voltados à terceira idade.

A imagem é o logo do Sefras - Amanhã, a segunda parte deste texto.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Encontro com o Leproso - Final

As Fontes Franciscanas falam do beijo. Beijar é passar o sopro de vida, o hálito que alenta, o toque que refaz. Mas quem beijou quem? Deixar-se beijar é mais do que beijar. Francisco recebe o toque de quem tem um último sopro de vida e esperança, um último fio de confiança. A confiança perdida é o paraíso perdido.
“E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles” (Testamento, 2). Não disse “eu tive dó deles”, “que judiação!”, “que pena!”, mas disse “eu tive misericórdia com eles”. Ter misericórdia com! Ir lá junto do sofrimento, misturar-se com a paixão dos que padecem a falta de cuidado. Quem vai lá, pouco a pouco, traz de volta ao Paraíso. Reconduz o humano ao seu melhor lugar. É preciso ir com o coração nas mãos e nas palavras. É muito diferente ser tocado por alguém que tem o coração nas mãos. Foi assim que o leproso beijou Francisco.
Imagem do artista plástico Frei Pedro Pinheiro da Silva

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Encontro com o Leproso - 4ª parte


Abraçar o que perdeu a chance de estar onde todos devem estar é que causa impacto. Conversão é deixar-se impactar-se. O leproso abala as estruturas todas de Francisco e afina seus sentidos para cuidar do humano. Aprendeu com a fala da Cruz que reconstruir significa colocar novamente a humanidade em pé.

Como um enfermeiro ousado, como um terapeuta engajado, como um assistente social comprometido, como um evangelizador inserido, ele vai lá consertar o indivíduo para consertar a humanidade toda, melhorar o leprosário para tornar o mundo todo mais sadio de amor, ternura, afeto. Usou um único remédio que conhecia: a fraternidade.


Amanhã, a parte final deste artigo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Encontro com o leproso - 3ª parte

Para encontrar-se com a necessidade do outro e da outra é preciso mudar de lugar. A conversão de Francisco é mudar de lugar! Ele dá um salto, sai da sua situação e mergulha na proposta do Evangelho: o Reino de Deus é a ética do cuidado!

Por isso vai para as ruínas, sai fora dos limites da cidade, aproxima-se dos excluídos, vai viver com eles. Quando a sociedade exclui a pessoa, ela apodrece o humano. A pior lepra que existe é ser colocado à margem de tudo. A pior doença que existe é tirar da pessoa a possibilidade de conviver.

Quadro exposto no Noviciado de Rodeio (SC)


A quarta parte deste artigo na segunda-feira, Dia em que se comemora a Impressão das Chagas de São Francisco.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Encontro com o leproso – 2ª parte

O encontro de Francisco com o leproso, mais do que um momento, é uma atitude que vai envolvendo toda a vida. E isto tudo começa quando ele percebe-se infeliz e não satisfeito com o seu status: rico, empreendedor emergente, comerciante próspero, filho de Pedro Bernardone, líder da juventude em Assis, boêmio, generoso, folgazão, pródigo e vivaz. Tem tudo para dar certo e ser uma pessoa de sucesso, mas ele descobre que ser uma pessoa realizada é muito mais importante que ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é efêmero, a realização é para sempre!

Imagem do artista plástico Frei Pedro Pinheiro

Amanhã, continuação deste tema

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Encontro com o Leproso - 1ª parte


A tradição das Fontes Franciscanas coloca como marco da conversão definitiva de Francisco de Assis o seu encontro com o leproso. Velho e conhecido tema! Novo e sempre desafiador e fascinante tema! Que encontro foi este? Foi apenas ver, conhecer, cumprimentar, abraçar, beijar? Mera curiosidade? Afinal de contas quem não quer dar uma olhadinha na tragédia alheia? O certo é que Francisco foi onde ninguém do seu tempo queria ir: misturar-se com a miséria, com a pobreza, com a contaminação, com a doença, com o fétido, com o horrível. Foi e permaneceu ali como verdadeira iniciação: encontrar-se verdadeiramente com alguém é aproximar-se da sua realidade por mais terrível que ela seja. Encontrar-se é fazer vibrar o coração, é perceber o que se passa na intimidade do outro e da outra.

Imagem do artista plástico italiano Piero Casentini


Amanhã, a continuação deste tema

terça-feira, 11 de setembro de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - Conclusão


Podem-se ler páginas e páginas maravilhosas sobre a oração hesicasta. Mas vamos fechar estas páginas de Leitura Espiritual, citando alguns belos pensamentos de Evágrio Pôntico (séc. IV dC):

A oração é um diálogo do intelecto com Deus

Reza sobretudo para receberes o dom das lágrimas, para abrandares a dureza do teu coração e obteres a misericórdia do Senhor.

Comporta-te com coragem e ora com força: manda para longe de ti todas as preocupações e reflexões que te assaltarem. Reza para não te deixares tomar pela inquietação e para não veres esvair-se o teu vigor.

A oração brota da doçura do coração e da ausência do ódio. A oração é fruto da serena alegria e do reconhecimento.

A oração expulsa a tristeza e a falta de coragem.

Durante a oração, esforça-te para tornares a tua mente surda e muda. Então poderás rezar de fato!

Não rezes para que se cumpra a tua vontade, a não ser que ela esteja em conformidade com a Vontade do Senhor.

A oração sem distrações é a mais alta manifestação da inteligência.

Orar significa elevar a inteligência até Deus.

Assim como a vista é o que de melhor possuímos entre todos os sentidos corporais, a oração é a mais divina de todas as virtudes.

Quando um dia, na tua oração, te sentires pervadido de grande alegria, então finalmente encontraste a verdadeira oração*.

* Cf. Meyendorf, J., San Gregorio Palamas e La Mistica Ortodossa, Turim, 1976, p. 11-14
O texto acima segue, em suas grandes linhas, o Professor de Espiritualidade Frei Iannis Spiteris, OFMCap. E toma por base suas aulas de Espiritualidade Oriental, no Pontifício Ateneu Antonianum. Cf. a sua Apostila de 1990, p. 73-91, que o Autor deste artigo traduziu e adaptou.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 14ª parte


8. Oração e atuação no mundo
Orar com o coração não quer dizer desprezar o mundo e as pessoas, pelo contrário: é reecontrar o amor para com todas as criaturas. A Oração de Jesus transforma cada um (a) em criaturas para os outros. Yves Leloup, autor francês, que viveu um período no Mosteiro do Monte Athos, recolheu estas palavras de um dos monges: “Rezar é a arte de amar!”
Orar, rezar segundo o modelo hesicasta significa dar o sangue do próprio coração. É dar-se ao mundo, às pessoas, à própria casa, às estradas, ao trabalho e às refeições, dar a todas as atividades uma palavra, uma luz, transformar, enfim, tudo em um mundo espiritual.

Amanhã, a conclusão deste artigo.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 13ª parte


7. A Oração como bondade do coração
O que mais impressiona, em pessoas que seguem a via hesicasta, é a sua capacidade de criarem dentro de si mesmo e ao redor de si certas condições para serem elas mesmas a encarnação de uma oração contínua: a sua mansidão, a sua imensa bondade e o seu modo, reconciliado, de relacionar-se com todas as criaturas.
Conta-nos o Peregrino Russo: “Quando rezava, no fundo do meu coração, tudo o que me cercava aparecia sob um aspecto maravilhoso: árvores, ervas, pássaros, terra, água, ar... tudo parecia dizer-me que existem para o homem, que através do Amor de Deus, tudo rezava, tudo cantava a glória do Senhor. Compreendia assim aquilo que a Filocalia chama de consciência, o conhecimento da linguagem da criação, e via como é possível conversar com as criaturas de Deus”.

Imagem "Francisco", do artista plástico Frei Pedro Pinheiro

Amanhã, o nº 8 "Oração e atuação no mundo"

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 12ª parte


6. Oração hesicasta e iluminação
Quando a oração hesicasta se torna perfeita oração do coração, seu primeiro efeito é a iluminação. Não podemos esquecer que esta oração é o grito suplicante do cego que pede a Jesus que o cure da cegueira (cf. Lc 18,38). E Jesus atende ao grito do pobre cego: abre-lhe os olhos e lhe dá a iluminação.
A teologia da luz é muito importante para a espiritualidade. Na liturgia tudo é luz: a igreja fica toda iluminada, as imagens, o altar, os candelabros, a Palavra que vai ser proclamada diante do povo fiel.
A Páscoa é uma festa de luz!O Natal tem a Estrela que conduz os magos ao local onde se acha o Menino-Deus! A Festa da Transfiguração relembra o modo como o corpo de Jesus se torna transparente e todo iluminado no alto do Monte Tabor (cf. 9,28s).
A luz espiritual interior deve tornar-se, de modo carismático, sempre mais visível. É o frágil corpo humano, transfigurado, que já começa a participar da glória da divindade.
Quem através da prece provou a alegria e a presença de Deus tem os olhos iluminados.
Imagem, "Transfiguração", de Rafael

Amanhã, o nº 7 "A Oração como bondade do coração"

sábado, 1 de setembro de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 11ª parte


5. Orações simples, com poucas imagens
O Metropolita Ortodoxo Kálistos Were resume alguns aspectos importantes deste tema da oração hesicasta, baseando-se em experiências e palavras de muitos Santos eremitas:
Quando preenchemos a mente com a recordação de Deus, precisamos dar-lhe uma tarefa, uma atividade. E a única atividade, para este caso, é a invocação do Nome: “Senhor Jesus”. A recordação do Nome recupera uma mente desintegrada, partida em muitos cacos, e coloca de lado os pensamentos dispersivos. Não se trata de um conflito selvagem, nem de repressão violenta, mas de um delicado e perseverante ato de dar destaque ao Nome do Senhor. Quem não gosta de colocar em evidência o nome da pessoa amada?
Pronunciar o nome é morar na intimidade, é ir para o interior da casa. Não há necessidade de visualizar nada, mas é bastante estar dentro, morar, permanecer, bem dentro de uma sensação, de um sentimento, de uma convicção.

Amanhã, o nº 6, "Oração hesicasta e iluminação"