sexta-feira, 31 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 10ª parte

4. Orar com o coração

A oração hesicasta é também chamada de “oração do coração”. A noção de “coração” é um elemento essencial na espiritualidade oriental. O coração é o centro do ser humano, a raiz da faculdade ativa do intelecto e da vontade, o ponto de onde provém e para onde converge toda a vida espiritual. É a fonte, obscura e profunda de onde jorra a vida psíquica e espiritual da criatura humana.
A criatura humana costuma dispersar-se em muitas coisas, sobretudo através dos pensamentos. Pela inteligência, o espírito conhece um mundo mais externo, e corre o risco de perder o contato com o mundo espiritual. Orar com o coração significa voltar os olhos mais para a interioridade. Para reconstruir e reunificar a pessoa, é necessário reencontrar uma relação mais harmoniosa entre a inteligência e o coração.

Amanhã, o nº 5, "Orações simples, com poucas imagens"

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 9ª parte


3. A Oração do coração contrito
A segunda parte da Oração de Jesus: “Tem piedade de mim, pecador” revela a atitude fundamental do humano frente a Deus – a fé, a tranqüilidade dentro de si, a certeza de que só Deus salva. É a “metanóia”, a mudança radical da criatura para melhor, a partir da força/do poder do próprio Senhor.
Sisões, o Grande (séc. V) (imagem ao lado), não satisfeito com 62 anos de austeridades, em seu leito de morte confessava perante os outros monges: “Parece-me que ainda nem comecei a fazer penitência”.
Os monges do Monte Athos, repetindo a oração de Jesus, usam uma espécie de Rosário, chamado “komboschini”, que os ajuda a contar as invocações feitas... É composto de 100 nós, divididos em intervalos de 25, onde se fazem as “conversões”, isto é, prostrações profundas, grandes inclinações. Arrependimento e prostações demonstram a atitude física e psíquica dos convertidos do Evangelho.

Amanhã, o nº 4, "Orar com o coração"

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 8ª parte

2. A Oração de Jesus ou o Poder do Nome
A oração hesicasta, chamada também de “Oração de Jesus”, devido à contínua invocação do Nome de Jesus, é a oração que vai haurir a sua força no poder do Nome divino. O Nome de “Javé”, no Antigo Testamento, e o Nome de Jesus, no Novo Testamento, se identifica com a Pessoa mesma e é causa de salvação para quem o invoca: “Todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo” (At 2, 21).
Invocar o Nome significa deixar que Deus transforme a pessoa que O invoca por meio de seu Filho Encarnado com o poder ou a força do Espírito; significa deixar que Deus opere a contínua e progressiva cristificação. Em outros termos significa: contemplar a Deus e tornar-se a Ele semelhante. A oração contemplativa, de fato, é o diálogo do humano com Deus, é uma união mística.
O Nome de Jesus salva, cura, purifica, limpa o coração – dizem os autores hesicastas. São Barsanúfio e São João, mestres espirituais no Deserto de Gaza (século VI) recomendam: “A memória do Nome de Jesus destrói completamente tudo aquilo que é mau”.

Amanhã, o nº 3, "A Oração do coração contrito"

terça-feira, 28 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 7ª parte


Característica da oração hesicasta

A oração hesicasta possui algumas características inconfundíveis. Vamos elencar as principais:
1. Oração monológica
A Sagrada Escritura não se cansa de exortar o/a fiel a rezar continuamente: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17); “Orai incessantemente com toda a espécie de orações e súplicas no Espírito...” (Ef 6,18). Também Jesus costuma frisar a “necessidade de orar sempre, sem cansar” (cf. Lc 18,1), E exortar os seus discípulos: “Vigiai e orai!” (Lc 21,36).
A oração monológica (repetindo sempre uma só e a mesma coisa; do grego: monos: um só; e logos: palavra) é a preocupação de permanecer sempre na presença do Senhor, com orações simples e jaculatórias. A forma primitiva desta prece é o “Kyrie eleison”. A forma mais comum soa assim: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!” (cf. Lc 18,13 e 18,38). Trata-se de uma junção da oração do publicano da parábola com o grito do cego de Jericó, que implora a cura. A oração monológica é também chamada de “oração pura”.
Esta fórmula é a síntese de tudo aquilo que é necessário da parte de Deus e da criatura humana. A invocação: “Senhor Jesus, Filho de Deus” constitui o pressuposto divino de salvação (Deus quer salvar e salva de fato!); e a expressão: “tem de piedade de mim” constitui o pressuposto humano da confiança e da compunção do coração.

"Trindade" - Imagem do artista plástico Domenico Beccafumi

Amanhã, o nº 2 "A Oração de Jesus ou o Poder do Nome"

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 6ª parte


4. A Doutrina da Deificação
O mistério cristão, na sua essência, é a união/a aliança entre Deus e o humano: “Eu lhes dei a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e Tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que Tu me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jô 17,22-23).
Esta união com Deus através da nossa união com Jesus constitui a salvação do humano, o vencer a fragilidade humana para participar da natureza divina. A esta noção os Padres Gregos chamam de “deificação” (em grego: theosis), o processo da divinização do humano.
A oração hesicasta quer sempre recordar esta certeza de “ser em Deus”. Com a oração, esta nossa transformação em Deus se faz sempre mais ativa e consciente, e se desenvolve em todas as suas possibilidades.
O hesicasmo mostra que isto é possível através dos sacramentos, da ascese e da “oração de Jesus” (a invocação incessante do Nome de Jesus).

Imagem de São Cipriano, na Basílica de Santo Apolinário Novo, Ravena

Amanhã, o subtítulo "Características da Oração Hesicasta"

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 5ª parte


3. A Recordação de Deus

A doutrina da recordação de Deus vem de São Basílio (foto). Ele mesmo pergunta e responde: Qual é o “próprio” do cristão? Responde o Santo: É conservar a constante recordação daquele que morreu e ressuscitou por nós! Ser cristão é ter sempre o Senhor diante dos olhos.
É vencer o assalto dos pensamentos contrários para estar sempre no Senhor. É vencer a autocontemplação, o voltar-se mais para si mesmo, a preguiça, o cansaço. O hesicasta é aquele que diz: “Durmo, mas meu coração vigia!” Vale mais um desobediente alerta que um hesicasta distraído.
É também um culto e um serviço ininterrupto a Deus. A recordação de Deus é toda a respiração, se não, a solidão espiritual não pode ser compreendida.

Amanhã, continuação com o 4º pressuposto "A Doutrina da Deificação"

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 4ª parte


2. Nepsis
Trata-se de outra atitude recomendada pelos mestres hesicastas. Nepsis, palavra de origem grega, significa sobriedade, abstinência (o verbo nepso quer dizer: manter-se sóbrio, abster-se de vinho). É aprender a viver do estritamente necessário, em uma espécie de jejum espiritual que atinge todas as dimensões da existência. É cuidar da inteligência, da mente e do coração, é não se deixar encher de paixões, distrações e excitações, para permanecer sempre em estado de oração. É a atitude do cristão que deve sempre permanecer em Cristo (Jo 15,4), com todas as suas faculdades. É um método espiritual que confronta todo o humano com a graça de Deus.
Graças à nepsis consegue-se afinar sempre melhor a atenção, apurar a atenção do coração. Muitos consideram a nepsis a mãe da disciplina da oração.

Amanhã, o terceiro pressuposto "A Recordação de Deus"

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 3ª parte

Pressupostos da espiritualidade hesicasta
1. Hesychia e Amerimnia
A hesychia diz respeito à interioridade do humano. Mais que um modo de vida é um estado de alma. É resultado de uma longa luta contra as paixões escravizantes, as agitações e as preocupações mundanas. É o domínio sobre as paixões para poder amar absolutamente e com a máxima liberdade o Senhor.
Quanto à amerímnia (do grego: não-preocupação, despreocupação, tranqüilidade), esta indica de certa forma a mesma coisa: é a conquista disciplinada da serenidade existencial, ser livre de qualquer afã terreno, desvincular-se dos pensamentos deste mundo para se dedicar somente a Deus.

Amanhã, o 2º pressuposto "Nepsis" na quarta parte deste texto.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta - 2ª parte


Pode-se, então, definir o hesicasmo como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa, que consiste no aperfeiçoamento do humano na busca da união com Deus através da oração contínua.Os grandes mestres da oração hesicasta, que criaram o método e sobretudo a teologia da oração hesicasta, podem ser encontrados entre os séculos XIII e XIV no Monte Athos (foto).
Vamos aqui recordar alguns nomes: Gregório, o Sinaísta (+1346). Do Mosteiro do Monte Sinai, ele transportou a “oração do coração” para o Monte Athos. Nicéforo, o Hesicasta, de origem calabresa, converteu-se à Ortodoxia e se tornou monge no Monte Athos. Escreveu um pequeno tratado intitulado: “Sobre a Custódia do Coração”, que se tornou um clássico da oração hesicasta.
Do século XIV temos um tratado anônimo chamado: “Método da Santa Oração”, que é às vezes atribuído a São Simeão, o Novo Teólogo, mas não é verdade que seja dele esta obra.Um outro grande hesicasta é Teolepto, Metropolita de Filadélfia (1250-1345), que formou gerações inteiras de hesicastas.
Finalmente, temos o já citado Gregório Palamas (1296-1359), que é considerado o maior teólogo do hesicasmo.

Continua amanhã, com o subtítulo "Pressupostos da Espiritualidade Hesicasta"

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A Espiritualidade Hesicasta


Quando se fala de hesicasmo, pensa-se geralmente em um método de oração baseado na repetição infinita do Nome de Jesus, método codificado no ambiente do Monte Athos (foto à direita), nos séculos XIII e XIV. Trata-se da sistematização filosófico-teológica dada a esta corrente de espiritualidade por Gregório Palamas no século XIV. Trata-se de uma corrente de espiritualidade que se identifica muito bem com a espiritualidade monástica.
Essa corrente de espiritualidade perpassa os Apotegmas dos Padres e as Vidas dos Padres do Deserto. Todavia, aqueles que a descreveram com maior perfeição são os autores da chamada Escola Sinaítica dos séculos VI e VII, de um modo todo especial João Clímaco e Hesíquio o Sinaíta.
Em grego, a palavra hesychia designa um estado de calma, paz, repouso, quietude, tranqüilidade, resultado da ausência disciplinada de agitação interna e externa. É o exercício feito para se libertar do barulho, conflito, inquietude, preocupação e medo.
Assim compreendida, a hesychia, nos autores espirituais, indica também recolhimento da alma, silêncio, solidão interior e exterior, uma plena união com Deus. Este termo é também usado na espiritualidade monástica para indicar o estado de quietude e de silêncio de todo o ser humano, para que ele possa permanecer ligado no divino.

Este artigo, que foi publicado na Revista "Grande Sinal" (93), continua amanhã.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

SANTA CLARA DE ASSIS



11 de Agosto

"Clara é um ícone da vivência radical do Evangelho: vivê-lo e nada mais! Transformou a essência do cristianismo num modo cotidiano, simples e fraterno. Uma Dama Nobre que escolheu viver a sobriedade longe do barulho escandaloso das colunas sociais".

No site da Província da Imaculada, no índice dos artigos, há uma série de artigos que fiz para comemorar os 750 anos da morte de Santa Clara.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A espiritualidade do trabalho - Conclusão

Não esgotamos aqui todo o conteúdo da espiritualidade do trabalho. Destacamos apenas alguns aspectos para sugerir uma reflexão mais aprofundada que pode nascer a partir deste texto. O importante é perceber o trabalho como Graça do Senhor, como o dom de ocupar-se, distribuindo vida, vivendo em comunhão com o mundo e com a humanidade. É o modo de restaurar a harmonia da vida trabalhando o espírito e a matéria. Quando trabalhamos realizamos a continuidade da obra criadora de Deus.
O trabalho distingue o humano de todas as criaturas, pois ele realiza no ser humano a liberdade, a razão, e a vocação original para uma ocupação. O humano não existe de um modo estático diante de tudo o que é, mas é no concreto de seu fazer um instrumento de uma Obra Maior.

Almeida Cunha , R. I., Desafios do Mundo do Trabalho à Vida Religiosa: Inserção, Formação, Trabalho, RJ, CRB, 1987, 36.
Comblin, J., O Tempo da Ação, Ensaio sobre o Espírito e a História, Petrópolis, Vozes, 1982, 224.
Idem, 229.
Idem, 235
Boff, L., O Destino do Homem e do Mundo, Petrópolis, Vozes, 1973, 44-45.
Comblin J., Antropologia Cristã, A Libertação na História – III, Petrópolis, Vozes, 1985, 173-181.
Antoncich, R. – M. Sans, J. M, Ensino Social da Igreja, A Igreja, Sacramento de Libertação, IV, Petrópolis, Vozes, 1987, 103-111.
Idem, 112
Idem, 129-134
T. de Chardin, L avie Cosmique, in Écrits du temps de la guerre, Paris, 1965, 6-61.

Imagem: O Milagre dos Peixes, de Rafael

terça-feira, 7 de agosto de 2007

O dinamismo sobrenatural do trabalho - 9ª parte


Trabalhar é a atividade do Humano Espiritual comprometido com a realidade e pronto para melhorá-la, e completar assim a obra redentora. É mostrar com o suor do próprio rosto qual é o projeto do Reino de Deus agindo no miolo do mundo de produção como um sinal de alerta.

Ontem éramos chamados a harmonizar dentro da própria alma a obra grandiosa de Deus; hoje somos chamados a harmonizar a obra grandiosa de Deus lá onde existe desarmonia, imperfeição, injustiça, desnível social, opressão, sendo assim obrigados a ir além do espaço limitado da nossa piedade pessoal e acomodada. O mundo do trabalho afasta desta acomodação e mostra qual a realidade que precisa ser salva. Não é uma tarefa tranqüila e fácil. A espiritualidade da Cruz fala alto no mundo do trabalho. Quem mais se empenha mais sofre, quem mais sofre porque ama este empenho com paixão e profetismo, mais salva. “A Cruz é o símbolo do trabalho árduo da Evolução”(10).


Amanhã, a conclusão deste artigo "A espiritualidade do trabalho"

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O dinamismo sobrenatural do trabalho - 8ª parte


Os documentos de Medellín e Puebla têm a preocupação de mostrar a primazia da dignidade humana sobre o capital para que o ato de trabalhar seja mais do que uma atividade comum, mas tenha também o caráter celebrativo: “quem trabalha com reta consciência e amor da verdade e da justiça vê no seu trabalho uma doação de sua vida. Cristo nos torna capazes de vivificar pelo amor nossa atividade e transformar nosso trabalho e nossa história em gesto litúrgico”(Puebla, 213)

As Conferências Episcopais não passam indiferentes diante da importância deste assunto. Em seus documentos e declarações mostram que um dos conteúdos fortes do trabalho é ser iluminado a partir da fé e com isto atingir os setores mais humildes. Este é o núcleo da justiça social. É o que dá um novo valor à dimensão espiritual do trabalho: “Não há justiça social sem uma profunda concepção moral e espiritual do trabalho. Mediante o trabalho o Ser Humano muda a sociedade e melhora as relações sociais. É vocação e missão de mudança da situação.

Ilustremos com o que diz a Conferência Episcopal do Chile: “Deus não pode abençoar a realidade de que a pessoa humana vale menos do que o trabalho e que a dignidade humana seja pisoteada. Deus não pode abençoar o fato de uma família viver amontoada em dois cômodos. Deus não pode abençoar uma sociedade onde o dinheiro e o poder valem mais do que os homens. Buscar a ganância às custas da pobreza alheia vai contra toda lei divina, e serão malditos por Deus os que contribuem para criar condições humanas injustas” (9).

Amanhã, continuação deste subtítulo do artigo "A espiritualidade do trabalho"

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O dinamismo sobrenatural do trabalho - 7ª parte


Um dos documentos mais importantes para a espiritualidade do trabalho é a Encíclica “Laborem Exercens” que afirma que “o eixo do ensino social é o homem solidário e o seu trabalho. O trabalho “define” o homem, mostra o seu ser, sua natureza como pessoa aberta ao mundo pela inteligência e pela liberdade, mas dentro de uma comunidade de pessoas; deste modo se revela o ser do homem como imagem de Deus” (7)

A “Laborem Exercens” chama a atenção para a contribuição do próprio Cristo como modelo, inspiração e espiritualização do mundo do trabalho, pois Ele mesmo o exerceu silenciosamente no seu espaço familiar e social, usando-o como símbolo e conteúdo de pregação do Reino de Deus, e fazendo do próprio anúncio a sua experiência de trabalho. Também o apóstolo Paulo mantém o espírito de Jesus no seu modo de abordar a comunidade cristã primitiva: trabalho como meio de vida, como condição do exercício da caridade, como partilha e caminho concreto de profunda identificação com o próprio Deus (8).

Amanhã, continuação deste subtítulo do artigo "A espiritualidade do trabalho"

Imagem: O Apóstolo Paulo chega a Roma, escultura na Basílica O Apóstolo das Nações, em Roma

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O dinamismo sobrenatural do trabalho - 6ª parte

Não se pode falar do trabalho apenas na perspectiva individual, mas sob a implicância de toda sociedade humana que se estrutura e se desenvolve graças à diversidade de atividades; cada uma deve ser considerada não só em si mesma, mas também em relação ao todo. A força de muitos é um vigor vital. “A família humana pouco a pouco se reconhece e se constitui como comunidade do mundo inteiro”(Gaudium et Spes 33).

Melhorar o mundo corresponde ao plano de Deus (GS 34), é serviço prestado à vida. O Concílio reforça este valor ao afirmar que “é de valor maior que as riquezas externas que se podem ajuntar. Tudo o que os homens e mulheres podem fazer para alcançar maior justiça, mais ampla fraternidade e uma organização mais humana nas relações sociais ultrapassa o valor do progresso técnico. Pois estes progressos podem oferecer como que a matéria para a promoção humana, mas por si só não a realizam de modo algum” (GS 35).

Amanhã, continuação deste subtítulo no artigo "A espiritualidade do Trabalho"

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O dinamismo sobrenatural do trabalho - 5ª parte

Estar bem no mundo é amar o mundo. Quem ama cuida, transforma, melhora, dá um acabamento íntimo a todas as coisas; esforça-se para aplicar uma energia interna numa realidade externa. Trabalho é encontro de potencialidades interiores com as exteriores; todo trabalho é obra da inteligência e das mãos. É um fazer decisivo para a dinâmica histórica.

Todo este conteúdo ético-espiritual do trabalho leva também a um questionamento: “Os documentos contemporâneos citam com muita complacência os textos do Gênesis que fazem do trabalho uma participação na obra criadora de Deus. O Gênesis entra de fato em concordância com as aspirações das civilizações do trabalho da atualidade: o trabalho transforma o mundo e pela transformação do mundo transforma a própria humanidade. Assim se manifesta o que deveria ser o trabalho. Aquilo é a meta, a utopia que procuram os trabalhadores e que lhes permite ver até que ponto eles estão frustrados como trabalhadores. Acontece até hoje que muitas das tarefas assumidas nada têm de transformadoras nem do mundo nem do humano, e não fornecem nenhuma imagem da obra da criação de Deus (6).

Amanhã, continuo neste subtítulo do título principal "A espiritualidade do trabalho"

Imagem de Michelangelo - A criação do sol, da lua e das plantas