terça-feira, 31 de julho de 2007

O dinamismo sobrenatural do trabalho - 4ª parte

Este aspecto da reflexão é que nos remete à Espiritualidade do trabalho. Quando dizemos espiritualidade estamos entendendo Vida segundo o Espírito, e complementamos com a idéia de espiritualidade usada pelo Concílio Vaticano II: Forma de Vida, Gênero de Vida, ou Vida Cristã em suas mais diversas formas.

O trabalho possui a sua espiritualidade própria enquanto Projeto de Vida, enquanto relaciona o Humano ao Deus Criador, entrando assim na dinâmica de construir e fazer nascer o mundo, sustentando a vida e tecendo relações. É “investimento de Espírito na matéria no sentido de transformação desta matéria em paisagem humana e fraterna. A Bíblia considera o trabalho vocação terrestre do Ser Humano (Gn 2,15), desde a criação do mundo homens e mulheres destinam-se ao trabalho. É participação humilde e dolorosa no ato criador de Deus” (5). Trabalhando entra-se mais neste projeto.
Max Weber disse que não existe o Humano se não na ação de transformar o criado. Esta é a causa do desenfreado progresso materialista, entretanto, é a provocação para a retomada de consciência de que todo ser criado é uma responsabilidade comum entre Deus e o Ser Humano. O Ser Humano não é patrão de todo ser criado mas um administrador responsável. Esta concepção mostra a riqueza espiritual e antropológica que o trabalho possui dentro de seus valores. É uma atividade que unifica aspectos estruturantes do ser humano e da sua relação com Deus e com o mundo.

A Espiritualidade do Trabalho - Amanhã continuação deste subtítulo

Imagem de Michelangelo - A criação de Adão

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O dinamismo natural do trabalho - 3ª parte

O trabalho deixou de ser artesanato, deixou de ser arte para tornar-se linha de montagem, produção em cadeia. Tudo converge para este campo: educação, cultura, religião, história. Tudo é revolucionado e influenciado por ele, que usa todos os meios para se impor, até a escravidão, a violência etc. O trabalho age sobre as leis e os códigos, cria o seu direito próprio, o direito de ter vagas, de não haver desemprego, de sindicalizar-se. Não existe sindicato mais forte do que o dos trabalhadores.

A ideologia do trabalho é tão forte que se torna padrão de busca: para uma melhor qualificação, melhor colocação, melhor salário, melhores oportunidades. Isto gera uma experiência vital, traz o sentimento de superação, de dignidade, dá status social, contesta a preguiça, aumenta a escala social de valores. Visto por este prisma o trabalho é um fator de libertação.

Todavia há o questionamento: o trabalho traz automaticamente a felicidade e realização a todo ser que trabalha? É realização existencial ou apenas uma satisfação de necessidades imediatas? Por que os menos favorecidos não podem participar dos bens de produção e dos confortos? Os pobres, por exemplo, são excluídos do mundo avançado da informática. Isto tudo provoca uma tensão natural e real. Lembramos mais uma vez as palavras de Comblin: “Na Idade Média cantava-se nos campos e nas oficinas. Hoje, muitos operários consideram seu trabalho como o reino do aborrecimento. Mesmo as classes dirigentes vivem em estado de tensão. Todos se queixam da falta de amor, de calor nas relações humanas, de comunicação entre as pessoas, de solidão (4)

Por isto devemos olhar este sistema com olhos críticos. Lá onde ele maquiniza, embrutece, escraviza e faz do Humano não irmão do cosmos, mas apenas engrenagem de um processo, ali não está sendo um fator de libertação.

Amanhã, um novo subtítulo deste texto sobre a espiritualidade do trabalho: "O dinamismo sobrenatural do trabalho"

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O dinamismo natural do trabalho - 2ª parte


Do trabalho depende a economia e a produção de bens de consumo, atendamos o que diz José Comblin: “O trabalho é uma atividade que produz bens destinados a serem consumidos para dar satisfação às necessidades . Está integrado à cadeia: necessidades, produção, consumo” (2).

O mundo do trabalho é o mundo pelo qual a pessoa torna-se ação. Nele ocupa a totalidade de suas horas, investe toda a sua capacidade racional. A ciência e a técnica fazem dele um terreno fértil de investimento. “O mundo do trabalho conquistou a terra toda. Tendeu a englobar o maior número possível de trabalhadores: os antigos camponeses e artesãos, os nômades e os caçadores, as terras conquistadas e transformadas em colônias, os empregados e servidores de todas as espécies, mesmo os soldados, e, em seguida, os indivíduos na mesma condição”(3)

O capitalismo é acusado de ser a grande causa da exclusiva condição trabalhadora da humanidade, que precisa empenhar aí a grande parte de seu tempo. O socialismo acabou entrando pelo mesmo caminho, tudo fruto da modernidade que faz o ser humano totalmente voltado para a produção.

A Espiritualidade do Trabalho - Amanhã, a terceira parte deste subtítulo

quarta-feira, 25 de julho de 2007

O dinamismo natural do trabalho - 1ª parte

Neste ponto não vamos nos alongar, pois qualquer documento de sociologia, de antropologia, de estudos sociais, uma boa análise de conjuntura, nos dão uma visão mais precisa e completa. Porém devemos elencar algumas características da condição atual do trabalho para haver o confronto com o seu significado espiritual.

O que é viver o mundo do trabalho e o mundo construído pelo trabalho? Sabemos que vivemos em plena era da produção, que é preciso uma luta ferrenha para sustentar a própria vida, garantir alimentação, moradia, ter o que vestir e um mínimo necessário de bem-estar. Todo este processo vai elaborando o conceito de trabalho como sinônimo de ganha-pão, sustento, luta, subsistência, que envolve o humano no seu todo e aparece como atividade psicológica, física, intelectual, planejada, técnica e tecnológica. Hoje, quase retomando a idéia dos gregos: “o doloroso preço que os deuses cobram pelos bens da vida”.

Se partirmos desta concepção de trabalho que nos é legada pela modernidade, temos uma ocupação física exigente, dura, desinstaladora, temos “o trabalho como uma atividade física de produção que relaciona o humano com as coisas oferecidas pela natureza e transformadas por ele” (1). É a ação de vender a própria força e a capacidade de trabalhar, e, de um modo geral, nem sempre remunerada justamente por isso. É suar gratuitamente para enriquecer uma instância superior.

A Espiritualidade do Trabalho - Amanhã, a segunda parte deste subtítulo

terça-feira, 24 de julho de 2007

A espiritualidade do trabalho - Introdução


Cada vez que pensamos a vida nos confrontamos com o seu dinamismo, e o entendemos como um impulso, uma força que move cada ser vivente. A vida não é apenas dada ou prometida, mas participada. Este dinamismo é absorvido na dimensão natural e sobrenatural.Esta nossa reflexão se mede com duas realidades da vida: a atividade humana concentrada na força transformadora do trabalho, e a motivação interior que ela necessita. Não é algo tranqüilo pensar o sobrenatural presente no mundo do trabalho, sobretudo hoje, mas não podemos negar uma espiritualidade ali presente.

Amanhã, a primeira parte da "Espiritualidade do trabalho"

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A personalidade de Francisco


Francisco nasce em 1182. Século 13. Francisco era de uma família rica. Seu pai era um mercador. O que significa para a época aquele que trazia fazendas, perfumes e tecidos de longe? Nós temos de voltar 800 anos onde o mundo e a sociedade não conheciam os meios de comunicação. A comunicação vinha através do oral, da fala, dos anúncios, dos textos e das canções, que eram passados de boca em boca.
Nem todos tinham livros à mão. 80% da sociedade não tinham acesso à gramática. Não sabiam ler. De modo que um mercador era uma pessoa importante. Ele trazia informações. O Pai de Francisco, Pedro Bernardone, era uma pessoa influente na cidade de Assis. A alta nobreza, a baixa nobreza, o povo em geral e os pobres se vestiam em público com as roupas que ele trazia. A alta nobreza, ao aparecer em público com as roupas coloridas, revelava a classe a que pertencia. A baixa nobreza vestia um tom mais pastel com toques de amarelo e verde. O povo em geral vestia um tom de algodão. E o povo bem simples, o povo pobre, ficava com o tecido mais barato. De modo que o mercador era o grande símbolo de que valia muito quem tinha. Quem vestia, quem vendia. Além do mais, para o mundo medieval, vestir não é como hoje. Para eles, havia a investidura. A veste significava a identidade da pessoa. A roupa significava o meu espírito. O mercador também trazia roupas revestidas de grande luxo, de grande porte, de grande força para os cavaleiros. Quem tinha a investidura da armadura cavaleiresca era como se nele entrasse o espírito da luta. O espírito do guerreiro e da coragem.
O mercador era muito importante: ele moldava o jeito de um povo. Mas, sem dúvida, ele era alguém que já ia preparando uma civilização do ter. Eu tenho dinheiro, portanto eu tenho razão. Eu tenho veste, portanto eu tenho posição. Eu tenho como negociar, comprar, trocar. Eu tenho moedas, portanto, eu tenho força. Esse é Pedro Bernardone. Um homem ambicioso, corajoso e determinado. A personalidade deste homem influenciou muito a de seu filho. Francisco sempre foi corajoso, determinado, ambicioso. Alguém que também sonhou em investir-se das armaduras de um cavaleiro. Ir para longe, conquistar terras. Aumentar o seu patrimônio. O pai sonhava que ele trabalhasse nas lides do comércio. O comércio crescia e era forte.


Amanhã, continuo neste tema. Imagem "Francisco", de Giotto.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Francisco mostrou o caminho

Francisco é filho de uma época e de um povo. E o povo e a sua época se reconheciam nele. Se inspiravam nele e se viam nele.
Então, Francisco não é apenas um personagem histórico. Ele é um momento dentro de nós. Ele quer experimentar Deus e, ao refazer este caminho de experimentar Deus, ele quer refazer o caminho da encarnação. Isto é, Deus encarnado, real e presente na vida e nas estações do povo.
Ele vem trazer para nós a certeza de que o cristianismo precisa de uma mística, precisa de uma espiritualidade. É o modo franciscano de viver o cristianismo. Nós não somos fanáticos e fundamentalistas. Nós somos apaixonados por um projeto do Evangelho. Agora, nós precisamos de modelos vivos. Alguém mostrou para nós este caminho.
Imagem de Taddeo Gaddi

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Mais um pouco sobre a mística


A palavra mística vem do grego = mueiv = muiein = iniciar. Iniciação. Introduzir alguém nos significados, na importância, na qualidade, na verdade. Tudo que nasce dentro de um contexto religioso, no momento de transcendente, no momento de grande qualidade, está ligado aos mistérios. É ser introduzido numa experiência mais interna, numa realidade transcendente. Mística é também a vivência de uma causa. É a vivência de um projeto. Trabalhar num projeto social, pastoral, não é uma atividade qualquer: é mística. É a mística do ocupar-se. Porque se vive uma causa. Não é uma atividade qualquer. É a sublimação de um trabalho para melhorar a qualidade de vida de tanta gente.
Hoje é importante viver a sedução por aquilo que se faz. É repetir aquilo que disse Geremias, capítulo 20, versículo 7. “Seduziste-me Senhor e deixei-me seduzir”.
Isso é mística. Espiritualidade e mística não é ter ou não ter. É encontrar-se com o externo. Um dos grandes projetos da mística franciscana é a fraternitas. Fraternitas significa “doce é saber e eu não estou sozinho. Sou uma parte de uma imensa vida”. O fraternismo universal, o universalismo fraterno. Francisno não queria o social pelo social. Ele queria o social de relacionamento. De relações.
Por isso que é importante isso: antes da razão vem o grande encontro. O encontro com o coração do outro e da outra. Com o coração dos meus projetos. Então, isso é mística.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Espiritualidade


Teilhard de Chardin tem uma frase que, a meu ver, é um princípio fortíssimo da espiritualidade. Ele diz assim: ‘Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual, mas nós somos seres espirituais que passamos por uma experiência humana’. Entender o que significa uma espiritualidade é exatamente isso. Existe dentro de nós uma ponte: uma imagem e semelhança do sagrado, do divino. Essa imagem e semelhança de Deus.
Muita gente, hoje, confunde ser espiritual com ser religioso. Ou, então, deixa a questão da espiritualidade para as igrejas, para pessoas consagradas a causas religiosas. Mas é algo muito maior. Ser espiritual é o poder de transformar a sua vida; transformar a civilização e o curso da história.
Ser espiritual é desenvolver valores pessoais e se envolver com a sociedade e com o mundo tendo como objetivo melhorar o mundo, melhorar as pessoas e a si mesmo. Ver a vida de um modo mais leve; ver o jeito gracioso das coisas; recuperar qualidades, como, por exemplo, o entusiasmo, a alegria plena, a honestidade, a energia, a perseverança, a paz e as forças interiores.


Imagem: Afresco de Giotto

segunda-feira, 16 de julho de 2007

O que é mística?


O amor não é amado saía Francisco gritando por todas as estradas, ruas e bosques da Úmbria. Que amor é esse que precisa ser amado. O amor da sublimação, da transcendência, a qualificação da vida a partir daquilo que se crê. Mas não crer não significa credo. As religiões hoje trabalham muito em cima de doutrinas, credo, catequeses, doutrinação. Ninguém se converte professando credo, porque Deus não é professar; Deus é sentir. Deus é percepção. Deus está dentro de mim e não fora de mim.
Ele sai de dentro para fora a partir de um sentimento, de uma busca, de uma emersão profunda, que muda, que sente. Isso é mística: o movimento da interioridade. Que está no centro e diz: Venha!
Deus é para ser sentido. Como fala aquele canto, que é um credo franciscano: “Doce é sentir em meu coração....”
Você já percebeu que é parte de uma imensa vida? Que você não está sozinho. Essa é a mística da percepção.
O que é mística? E apenas um revanche da pós-modernidade sobre a modernidade, que excluiu o sagrado de sua cultura profana. Da sua cultura consumista e mercantilista. Será que é apenas uma reação contra o esvaziamento religioso. O certo é que estamos vivendo um grande momento histórico. Estamos vivendo um grande momento da visualização explícita: a proclamação da sede do divino. Nunca se falou tanto de Deus! Nunca se buscou tanto Deus!

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Congresso franciscano já tem inscrições abertas


O Congresso Franciscano: Meio Ambiente, Ética e Franciscanismo será realizado nos dias 11, 12 e 13 de outubro de 2007, na cidade de Curitiba, Paraná.
A UNIFAE Centro Universitário Franciscano sediará o evento, que está sendo realizado em conjunto com o Instituto Franciscano de Antropologia, o Istituto de Filosofia São Boaventura e a Universidade São Francisco.
Destinado a alunos, professores e pesquisadores de todo o Brasil e do exterior de diversos cursos como, Ciências Biológicas, Física, Química, Turismo, História, Filosofia, Sociologia, Teologia, Congregações Religiosas, FFB, OFS, entre outros, o Congresso contará com a participação de palestrantes nacionais e internacionais.
Ao final do Congresso, será conferido certificado aos participantes.


VEJA COMO VOCÊ PODE SE INSCREVER NO SITE OFICIAL

terça-feira, 10 de julho de 2007

O que quer dizer São, Santa?


Quem qualifica a vida está na mística franciscana. Isso é cura. Curar é sanar. É fazer com que todos os encontros, todos os abraços, todos as fases sejam sãs. Você é são. Porque santo não significa aquele que foi canonicamente colocado no altar. Santo é uma grande alma. Como dizem os hindus: Mahatma. Mahatma Gandhi. Grande Pessoa, Grande Alma, Grande Valor. Mas é preciso perceber aquele que está ao seu lado. Você não é uma mulher, um homem qualquer: você é uma pessoa santa, santo.


Uma pessoa santa, sadia. É o sadio do humano. Quando digo assim: São Francisco é o humano sadio. São Francisco não é o patrimônio católico, não é um patrimônio cristão. Hoje ele é um arquétipo humano. Ele pertence a humanidade. Ele é o que a humanidade criou de melhor nos últimos oitocentos anos. Para dizer que esse é o modelo vivo, o referencial que nós precisamos de humano são. É recuperar o sadio da vida. Isso é mística!


Então, nós temos que aprender isso com a mística. Alguns sonham com a volta da garantia aos filhos e às filhas da terra a um lugar privilegiado sob os olhos misteriosos da divindade.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Voltar à essência

A modernidade criou a mística da qualidade total. Você se motiva e o patrão ganha. A modernidade trouxe para nós a funcionalidade. Mas de repente, ela abriu uma brecha muito grande: ela cuidou da técnica, ela cuidou de tudo, mas não cuidou da pessoa. Ela cuidou para que nós tivéssemos o bem-estar, de que pelo telégrafo nós chegássemos ao celular.
Ela cuidou de tudo para que nós aumentássemos toda a capacidade para que a nossa vida funcionasse. Ela, contudo, não cuidou do espírito. Mas devo anunciar a vocês uma coisa boa: a modernidade acabou.
Nós já estamos vivendo um outro momento: a pós-modernidade. Graças a Deus estamos em outro momento. A questão é perceber isso. A gente sabe que o mundo é feito de épocas.
Os gregos sempre ensinaram para nós que é preciso olhar o mundo dos mitos, dos significados, explicar a vida através dos símbolos, das alegorias, do essencial. Voltar aos mitos é voltar à essência.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O Sefras e a crise da alteridade

Crise de alteridade significa não prestar a atenção na pessoa da outra e do outro. A humanidade não é prioridade. Governos não cuidam de pessoas. Governos cuidam de bancos. Do Fundo Monetário. Nós não somos prioridade para governo nenhum. É mentira o que eles dizem! Qual o governo que investe em saúde, escola e habitação?
Não, eles fazem túnel, avenida, praça, oleoduto, aumentam o parque industrial da cidade, porque isso dá prestígio e necessita de muito dinheiro, que é desviado nas licitações. Mas nós não somos prioridade para os governos. É ilusão pensarmos que nós somos.
Por isso, o Serviço Franciscano de Solidariedade é uma reposta para a crise de alteridade, porque o Sefras existe para cuidar da pessoa.

A imagem ao lado "São Francisco e o Leproso" é do artista plástico italiano Piero Casentini

terça-feira, 3 de julho de 2007

A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA - Conclusão

Aprendemos com os místicos orientais o amor pela natureza. Uma natureza que precisa ser percebida com a alma. A alma é grande porque Deus a fez participar desta Beleza! Tudo é grande e belo, mas deve ser integrado no humano para que ele seja a Voz e a Consciência das criaturas. Aprendemos com eles a Fraternidade Universal, que não exclui o mundo das coisas! A Fraternidade Universal deve respirar com o pulmão do universo!

Rezemos com os Padres Orientais: “Graças, Senhor, porque somos também a concretização do seu Logos!”. Fazemos parte da sinfonia de Deus, Por isso não podemos desafinar, conquistemos a nossa harmonia! O mundo precisa demais de quem diga: Graças ao Criador! Diante da imensidão das obras não podemos nos calar.

Que nossa presença na natureza seja de agradecimento, reconhecimento, reverência e de restituição: vamos dar a Deus o que lhe pertence!

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA - 5ª PARTE

Mais Algumas Idéias Sobre a Contemplação da Natureza nos Místicos Orientais

A contemplação cristã da natureza não é um fenômeno esotérico reservado a poucos intelectuais de matriz cultural grega. Existem muitos exemplos, no mundo oriental grego e eslavo, de almas culturalmente pobres, mas ricas de interioridade cristiforme.

Isaac, o Siro, de Nínive, que viveu no século IV, se sente totalmente solidário com todas as criaturas, a ponto de crer não poder salvar-se a não ser em total comunhão com todo o criado. À pergunta que se põe: o que significa um coração puro, assim responde:

“É um coração que sofre com todas as criaturas. E o que significa um coração que se compadece? É um coração que se inflama de caridade, pela criação inteira, pelo ser humano, pelos pássaros, pelos animais, pelos demônios, por todas as criaturas. Quando pensa nestas criaturas, quando as vê, os seus olhos não podem a não ser encher-se de lágrimas. É assim tão grande e violenta a sua paixão que o seu coração se despedaça quando vê o mal e o sofrimento das criaturas mais humildes. Por isso não cessa de rezar entre lágrimas em todos os momentos pelos inimigos da verdade e por todos aqueles que lhe tenham feito algum mal, para que sejam protegidos e perdoados. Ele reza também pelas serpentes, movido de piedade infinita, que desperta no coração de todos aqueles que se assemelham a Deus” [1].

Estas palavras apaixonadas de Isaac são uma relação do humano reconciliado com o universo inteiro e por isto considera todas as criaturas suas irmãs e se sente solidário com elas. Isto trouxe um grande influxo em todo o cristianismo oriental, seja grego ou eslavo. No romance “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievski, Grigorij, o servo de Ivan Karamazov, se aplica obstinamente às pregações contidas no livro: “Os sermões do nosso santo padre Isaac, o Siro”. O pensamento do santo vem reproduzido nas palavras do Starezt Zosima: “Amai toda a criação divina, juntamente com cada grão de areia. Amai toda a pequena relva, todo o raio de sol! Amai os animais, amai as plantas, amai todas as coisas! Se amardes todas as coisas colhei nelas o mistério de Deus”.

Temos também Silvano do Monte Athos, falecido em 1938, portanto bem vizinho ao nosso tempo, destacando a sua doutrina e escritos, pelo testemunho de seu discípulo Sofrônio:
“A alma do starezt exultava de alegria diante da beleza do mundo visível... Sob este aspecto era como um menino: todas as coisas o maravilhavam!”

Nos seus ensinamentos Silvano dá também a razão pela qual o humano deve permanecer estático frente à beleza da natureza:

“O humano que perdeu a graça não sabe mais perceber a beleza do mundo e nada mais o maravilha; e não lhe toca mais nem mesmo a inexprimível beleza da criação de Deus. Eu sei quando a graça do Senhor está com o humano, tudo o que existe dá à sua alma um inconcebível maravilhamento, e contemplando a beleza visível a sua alma dá conta da incrível presença de Deus em todas as coisas” [2].


Enquanto observava as nuvens moverem-se no céu azul da Grécia, disse: “Que beleza criou Deus em sua glória, para o bem do povo que é seu, para que o povo glorifique com alegria o seu Criador... Ó Rainha dos Céus! Fazei que o povo seja digno de ver a glória do seu Senhor!” [3].

Para um companheiro de estrada, que com um bastão rompia as folhas dos arbustos à beira do caminho, dizia: “A folha era verde sobre a árvore e tu a estraçalhaste sem necessidade. É verdade que não é um pecado, mas o coração que aprendeu a amar se reconcilia com todas as criaturas, sobretudo com as mais pequeninas” [4].

A sua piedade para com os animais era comovente. Diz seu discípulo: “Lendo os escritos do starezt, é muito bom pararmos sobre seus pensamentos e seus sentimentos para com os animais. Não podemos experimentar a paixão que ele provava por cada criatura, e isto podemos sentir relendo o passo que dá ao deplorar a sua crueldade por ter matado uma mosca, ou por ter jogado água quente num morcego que se instalou no seu depósito; e assim podemos compreender a sua compaixão por cada criatura que sofre”. Naturalmente, nestes casos, não se trata de um amor pelos animais que substitui o amor pela humanidade, como muitas vezes pode acontecer. Ele deplora o amor exagerado pelos animais que esquece o amor pelos humanos e por Deus, último termo de todo amor pelas criaturas. O amor pelas criaturas deve nascer de graça. “A sua compaixão pelas criaturas não era um fenômeno patológico, mas sua a expressão de uma grandeza de alma sobrenatural e de uma bondade derivada da graça” [5].

Temos também São Serafim de Sarov (1759 – 1833). Ele é conhecido como o “São Francisco do mundo russo”. Este santo, que viveu grande parte da sua vida em contemplação dentro das impressionantes florestas russas, conseguia transfigurar o mundo numa contínua oferenda para o Criador. Através da oração contínua aprendeu a “conhecer a linguagem da criação, a escutar o louvor das criaturas e a compreender como é possível dialogar com elas”[6]. Um testemunho ocular relata:

“À meia noite, ursos e lobos, lebres e raposas circundavam o êremo de Serafim, junto a insetos e répteis de todos os tipos. Terminada a prece... o asceta saía da sua cela e começava a matar-lhe a fome dividindo com eles o seu pão seco. Um grande urso gozava de particular amizade com o santo homem... O que tocava a todos era a alegria que o Pai Serafim irradiava naquela ocasião. Sorridente mandava o urso pegar qualquer coisa, e este retornava pela rampa trazendo um favo de mel que o anacoreta oferecia gentilmente a seus hóspedes. Mais tarde as representações mais comuns de Serafim serão aquelas que o apresentam sentado à sombra de um pinheiro enquanto dá um pedaço de pão a um urso.” [7].

Mesmo após a revolução russa, a caça ao urso é proibida na floresta em que viveu São Serafim, o “semelhantíssimo a Cristo”, como era chamado na tradição póstuma.

[1] ISACCO DE NINIVE, Discorsi Ascetici-I: L’Ebbrezza della Fede, Roma, 1984,395.
[2] SOFRONIO, Silvano Del MonteAthos: La vita,la dotrina,gli scriti. Torino. 1973, 107
[3] Idem
[4] Ibidem.
[5] Ibidem, 105
[6] GORNAINOFF I. , Serafino di Sarov. Vita, colloquio com Motovilov, scritti Spirituali. Torino, 1981,16
[7] Idem 50

Amanhã, a Conclusão

domingo, 1 de julho de 2007

A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA - 4ª parte

A Contemplação da Beleza do Mundo

O ser humano, frente à beleza do mundo, não pode permanecer apenas movido por um simples sentimento romântico, mas tem que ser movido das considerações provenientes da fé. É sempre São Basílio que afirma:

“E o Senhor viu que era bom”. A Sagrada Escritura não entende nos dizer que o mar é visto por Deus no seu aspecto de beleza estética... porque o Senhor não se serve dos olhos para admirar a beleza das suas obras. Ele contempla os seres através da inefável sabedoria. Está certo que não se pode negar o agradável espetáculo que oferece o mar azul quando nele reina uma profunda calma... Mas não é esta a razão pela qual, segundo a Sagrada Escritura, o mar aparece belo e encantador aos olhos de Deus. A beleza deriva do fato que ela é a base da obra criador de Deus” [1].

A contemplação da natureza é um grande meio que nos ajuda a alimentar-nos da recordação de Deus. Esta é uma das expressões típicas da espiritualidade de São Basílio. Escreve Spidlik: “No pensamento cósmico de São Basílio, o mundo inteiro na sua multiplicidade, no seu ritmo e na sua maravilhosa ordem, não tem outra finalidade a não ser uma recordação de nossos contatos com Deus”. Para o Bispo de Cesaréia, o “próprio” do ser humano é conservar constantemente a memória do Senhor: “Quero deixar em ti uma profunda admiração da natureza, a fim de que em todo o lugar, contemplando as plantas e flores, sejas preso de uma viva recordação do Criador”. [2]

Se trata literalmente de apaixonar-se frente às maravilhas da natureza, porque o mundo representa um espetáculo frente ao qual tudo o mais empalidece. De fato, argumenta São Basílio, os apaixonados pelo teatro ou pela corrida de cavalos são tomados por esta paixão, quanto mais devemos nós permanecer admirados e relembrados “que o Senhor, o grande Autor e Artista das maravilhas do mundo, nos convida a assistir o espetáculo de sua Obras. Evitaremos nós , então, de contemplar, hesitaremos nós em escutar os ensinamentos do Espírito? Não devemos contemplar o grande laboratório da criação divina volvendo o nosso olhar sobre a harmonia do universo, sobre o céu, terra e ar?”[3]

A tradição espiritual do Oriente situa, numa ordem lógica, a contemplação da natureza depois da purificação do coração e antes da contemplação da Trindade. A contemplação da natureza é chamada “Theoria fysikè”. Trata-se da contemplação religiosa do mundo feita com sentidos espirituais elevados da graça para colher os “logos” divinos escondidos em cada ser, ou seja, a bondade de Deus Criador que forjou todas as coisas através do seu “Logos” [4].

Somente assim se supera a exterioridade das coisas e se pode captar e sentir a sua verdadeira linguagem. Trata-se da verdadeira ciência das coisas nas quais o humano purificado e tendo conquistado o coração puro, pode ver dentro das coisas um Plano divino e descobrir a Providência Divina feita toda ela de Amor e Sabedoria. Então a natureza se torna verdadeiramente um livro aberto para conhecer Deus e seu plano de Amor. Máximo, o Confessor, retomando alguns conceitos bíblicos, escreve:

“Não conhecemos Deus na sua essência, mas das suas grandes obras e da sua Providência nos seres. Através dos quais, como num espelho, nós compreendemos a sua infinita bondade, sabedoria e potência”. [5]

Para São Basílio, tudo é uma concretização da Palavra do Criador. Todo ser deve, portanto, falar, narrar a glória do Senhor. O Espírito a perfecciona; assim como o esplendor pertence ao sol, assim a glória do Senhor pertence ao Espírito[6] . A Beleza é sempre relativa, é enviada à Beleza Suprema, por isso é capaz de suscitar na alma o “exultar no Senhor”, porque esta nos lembra que somente o Senhor possui “uma tal Beleza, uma tal bondade e uma tal sabedoria”. A alma exulta porque o Senhor é grande e Belo. Toda a verdadeira Beleza, portanto, sendo um reflexo da Beleza Divina, não distrai o humano de Deus, não o perturba, porque lhe dá um aspecto feliz e doce que lhe torna sereno e jovial.[7] .

A ligação alegre do humano com o Cosmos aparece freqüentemente em vários autores. Máximo, o Confessor sintetiza: “Tudo o que foi criado por Deus nas diversas naturezas, concorre junto com o Humano como numa cozedura, para formar nele uma perfeição única, como uma harmonia formada de diversos sons” [8]. Nemésio, bispo de Emesa, cerca de 400 anos d.C.escrevia que o humano condivide a própria natureza com todas as categorias dos seres e que constitui a coligação ideal com cada um destes seres. O humano é uma comunhão com todas as coisas e participa vitalmente de tudo[9].

Clemente de Alexandria explicava que o Verbo fez do Humano um instrumento composto da harmonia de todo o universo para fazer um hino harmonioso a Deus. Assim o Humano não é um tirano frente à natureza, mas é integrado harmoniosamente nela, nascendo assim uma simpatia que liga o Humano ao Cosmos no Amor e na Amizade. São Basílio Magno exprime este pensamento de forma geral:

“O estar junto ao Cosmos, do qual o Humano faz parte integrante, mesmo que seja composto de partes desiguais, pelo Criador foi estreitamente unido como uma indissolúvel amizade e uma comunhão harmoniosa que os seres, os mais distantes uns dos outros, são entre eles unidos na mesma simpatia”[10]

Por este motivo que Máximo, o Confessor, tem uma concepção cósmica do amor. Para ele graças ao amor se cumpre uma síntese total da Humanidade e do Mundo numa idêntica Unidade. Não são dois amores, um pelo mundo e outro para Deus, mas dois aspectos do único e Indivisível Amor com que se ama o mundo e através dele: Deus! Por este motivo o Humano feito voz das criaturas, cria um Sacerdócio Cósmico, para louvar o Senhor por todas as criaturas. Diz o Confessor: “O universo é uma Igreja Cósmica, da qual a nave é o mundo sensível enquanto o coro é o mundo espiritual” [11]O Humano é convidado a entrar nesta catedral do universo para descobrir sob a direção do Logos, a verdadeira razão dos seres:

“A alma se refugia na contemplação espiritual da natureza como no salão de uma igreja, num asilo de paz... Ela entra junto com o Logos e é conduzida por ele, vosso verdadeiro pontífice. Ali, como por uma leitura divina aprende a conhecer os conteúdos significantes dos seres”[12]
Aqui o Humano se torna o verdadeiro sacerdote do mundo, que oferece a natureza a Deus, com o seu próprio coração como sobre o altar, e faz do íntimo do seu espírito o “Santo dos Santos”, e penetra até o Grande Silêncio de Deus[13].

O humano, mesmo sendo um microcosmo, não está em meio ao universo com um sentimento titânico de superioridade no confronto com a natureza; consciente de seu ser efêmero se põe a serviço do cosmos.

Inspirado e lírico, diz Máximo, o Confessor: “E nós mesmos, por força do imperioso decurso da nossa natureza presente, agora gerados e dados à luz como todos os outros animais terrestres, depois tornados crianças e enfim invadidos pela juventude até chegarmos às rugas da velhice, como uma flor que dura um breve momento para depois morrer e passar para a outra vida, na verdade merecemos chamar-nos um jogo de Deus”[14].

É o sentimento cósmico, a existência considerada como um ato litúrgico, como uma adoração, um culto celebrativo, uma dança sacra e estética.

[1] HEXAMERON, 4,6: PG 29,92 BC.
[2] Idem, 29,97C.
[3] Ibidem, 29,80AB.
[4] RAHNER, K..., Teologia dell’esperienza dello Spirito, Roma, Nuovi Saggi, 1978, 133-163: ROUSSEAU. O. Introduzione a Origene: SC 37 (1957) 21-25
[5] MASSIMO, IL CONFESSORE, Centurie sulla Carità – I, 96
[6] SPIDLIK. T. La sophiologie de S.Basile, Roma. OCA 162, 1961,12
[7] Idem
[8] LOSSKY, V., La teologia mística della Chiesa d’Oriente, Bologna, 1985.98,nota 33
[9] NEMESIO DE EMESA, de Natura Hominis I: PG 40, 505B- 507’535.
[10] HEXAMERON 2,2: PG 29. 33A
[11] MYST: PG 91, 669AB
[12] Idem
[13] H. Von BALTHASAR, Liturgia Cósmica, 337 - 338.
[14] AMBIG: PG 91,1416C

Amanhã continua com o subtítulo "Mais Algumas Idéias Sobre a Contemplação da Natureza nos Místicos Orientais"